Por: Gustavo Antonio Ascencio*
Oswaldo Elias Xidieh andou por Taquaritinga recolhendo histórias pias populares — que isso fique registrado. E, em suas andanças e escritos, reside muito de nossa cultura caipira, por mais que boa parte de nós a renegue ou nem saiba que ela exista, nesse mundo conectado onde somos cidadãos globais de uma megametrópole chamada Rede Mundial de Computadores. Estou me antecipando, penso que antes seja necessário apresentá-lo a vocês. Justo.
Mestre Xidieh, como cunhou Alfredo Bosi, dando ao epíteto um valor muito maior do que o título acadêmico homônimo, nasceu em 1915, na capital São Paulo, mas foi criado no interior como uma espécie de nômade. Com sua família, passou por Pilar do Sul, Jurema (atual Jurupema), nossa Taquaritinga, dentre outras paragens. Indiretamente aprendeu a ser caipira, tendo vários tutores populares durante sua vida. Conectei-me com sua história, além de outros motivos, pois nós dois cursamos a mesma instituição de ensino superior: a Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, ou Fefeléche para os mais íntimos. Ele fez Filosofia e eu, Letras. Contudo, ambos passamos por angústias semelhantes no que diz respeito à perda de identidade quando um caipira se vê num espaço erudito como esse (já falei sobre em crônica passada). Numa entrevista, feita em evento que o homenagiava na Unesp de Marília, onde trilhou brilhante carreira docente, Mestre Xidieh compartilha conosco que confrontar os conhecimentos místicos populares de sua infância com a ciência a qual acessava deixou-o doente: “Como um caipira, eu não pertenço à faculdade, não pertenço a esse mundo intelectual. Estava desconfiado de mim mesmo, sabe?”
Sim, sei.
Nossas soluções, pelo menos em seu nervo, também foram (ou estão sendo) um tanto semelhantes, Xidieh voltou e começou a construir um dos maiores, senão o maior, corpus de apócrifos do catolicismo folclórico da teologia brasileira. Eu bem, sou mais modesto, voltei… e ainda não sei ao certo o que fazer, veremos como essa história continua. Mas o fato é que Taquaritinga e suas personagens históricas representam um ponto nuclear dessa riqueza folclórica registrada e analisada por ele. E a grande maioria de nós não faz a menor ideia disso.
Foi nesse município que, ainda jovem, o mestre conheceu Hilário dos Santos, preto velho alforriado que lhe ensinou rezas para fechar o corpo; com quem viu o Boi-Bumbá pela única vez em sua vida!; quem lhe contou sobre a Revolução Monarquista que marcou a história de nossa cidade. Foi nessa terra que Oswaldo Elias Xidieh conheceu os sírios e os italianos anarquistas, onde ouviu pela primeira vez A Internacional e, logo na sequência, viu chegar “uns senhores de camisa preta, de calça, não sei o quê, com bandeira, com boné, não era bem um boné, chamavam bibi, com chicotes”, os fascistas. Aqui esteve também com Nhá Veva, preta benzedeira, parteira, curandeira e quitandeira, uma alma boa que ajudava a todos os necessitados.
Nessas mesmas ruas que eu e você cruzamos, nas palavras do próprio filósofo e sociólogo, aprendeu, com uma macumbeira chamada Dona Hermínia, “coisas muito importantes. Coisas que hoje me fazem pensar mal de toda e qualquer teoria, que era aquilo que eu não sabia. Eu aprendi coisas que parecem loucura…”. Dentre essas “loucuras”, conta que se é possível determinar pelas vestes a doença de alguém e que, assim como se faz benefícios com tal informação, malefícios podem ser feitos de mesmo modo, portanto quando der a sua roupa a alguém, lave-a e faça esta pessoa experimentá-la na sua frente! Fotografia? Muito cuidado, dado que enquanto você estiver vivo, ela estará viva! Assim, ao presentear alguém com um retrato seu, estará dando muito mais do que apenas isso…
O que você vê quando lê esses relatos? Eu vejo minha nona, meus avós. Vejo as histórias dos Capas Pretas que me tiravam o sono à noite. Vejo prédios e seus nomes. Vejo ruas e seus nomes. A nossa bandeira. Vejo nossos costumes, nosso povo, nossa cultura. Vejo Taquara Branca e Ribeirãozinho, São Sebastião dos Coqueirais, como no hino. Vejo Taquaritinga, a de ontem e a de hoje.



