Por: Sérgio Sant’Anna*
Na sala silenciosa de uma casa qualquer, um celular brilha mais do que qualquer livro. Ali, entre notificações e vídeos curtos, uma infância se esvai sem perceber que há universos inteiros escondidos em páginas que nunca foram abertas. E é nesse intervalo — entre o toque da tela e o virar de uma página inexistente — que começamos a formar aquilo que muitos já denunciam: uma geração de analfabetos funcionais, capazes de decodificar palavras, mas incapazes de compreender o mundo.
Paulo Freire já alertava que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. No entanto, como ler o mundo se não há mediação, se não há estímulo, se não há exemplo? Pais, responsáveis e demais agentes educativos parecem, muitas vezes, delegar à escola uma tarefa que começa muito antes: o encantamento pela linguagem. Sem esse primeiro fascínio, a leitura torna-se obrigação árida, não descoberta prazerosa.
Monteiro Lobato dizia que “um país se faz com homens e livros”. A frase, repetida quase como um clichê, ganha contornos dramáticos quando observamos que os livros têm sido substituídos por conteúdos fragmentados, rápidos e, muitas vezes, superficiais. Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de reconhecer que ela, sem orientação, dificilmente promove a profundidade interpretativa que a literatura oferece.
Nas canções de Chico Buarque, percebe-se como a palavra pode ser resistência, crítica e arte. Mas quantos jovens conseguem, hoje, compreender as entrelinhas de uma letra mais densa? Quantos identificam ironia, metáfora ou intertextualidade? A ausência da leitura literária compromete não apenas o desempenho escolar, mas a capacidade de interpretação da própria realidade.
Hannah Arendt refletia sobre a crise da educação como um reflexo da incapacidade dos adultos de assumirem responsabilidade pelo mundo que apresentam às novas gerações. Ao não incentivar a leitura, pais e educadores abdicam de formar sujeitos críticos, deixando-os à deriva em um oceano de informações sem bússola interpretativa.
Historicamente, como aponta Roger Chartier, a leitura sempre foi um instrumento de poder. Quem lê, interpreta; quem interpreta, questiona; e quem questiona, transforma. Não estimular a leitura, portanto, é também limitar o potencial de transformação social. É manter indivíduos na superfície, incapazes de mergulhar nas complexidades do mundo contemporâneo.
Curiosamente, até mesmo figuras populares como Oprah Winfrey atribuem à leitura uma função emancipadora. Seu famoso clube do livro não apenas popularizou obras, mas demonstrou como o hábito de ler pode mudar trajetórias pessoais. O exemplo reforça que o incentivo à leitura não precisa ser erudito ou distante — ele pode (e deve) ser cotidiano e acessível. No entanto, o que se vê, em muitas casas, é o silêncio dos livros fechados. Pais que não leem dificilmente formam filhos leitores. A leitura, antes de ser ensinada, precisa ser vivida. Como esperar que uma criança valorize o livro se nunca o vê como objeto de desejo, apenas como instrumento de avaliação escolar?
Machado de Assis, mestre das sutilezas, talvez ironizasse essa realidade ao mostrar personagens que “leem” o mundo de forma equivocada. Hoje, a ironia se torna concreta: vivemos cercados de informação, mas pobres em interpretação. O analfabetismo funcional não é a ausência de letras, mas a ausência de sentido.
Assim, estimular a leitura não é um luxo, tampouco uma tarefa exclusiva da escola. É um compromisso coletivo, urgente e inadiável. Pais, professores e sociedade precisam, juntos, reacender o valor da palavra escrita. Porque, no fim das contas, formar leitores é formar cidadãos — e sem cidadãos críticos, qualquer sociedade corre o risco de se tornar apenas um texto mal compreendido.



