sábado, 18 abril, 2026

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Artigo: Você nunca está atrasada para a vida que é só sua

Por: Nadia Araujo*

Eu ouvi isso recentemente e incontáveis vezes (acho que meu algoritmo entendeu o que eu estava passando). Isso porque, desde criança, eu sempre coloquei um prazo nas coisas: eu só poderia começar a aula de violão até os 14, ser uma modelo famosa até os 20, entrar na faculdade até os 19.

Eu não sei de onde veio essa pressa (Freud deve explicar), mas sempre vivi com o tic-tac do relógio na cachola. E sabe onde essa pressa me levou? A lugar nenhum! Não sei tocar violão, mas ainda tenho vontade; não fui uma modelo famosa, mas aos 27 eu tentei novamente; e só entrei na faculdade aos 21.

Mas se alguém lá atrás tivesse me falado essa frase, eu ia rir. “É lógico que eu estou atrasada, que besteira”. Eu não tinha o lobo frontal 100% formado para ter essa consciência (felizmente ou infelizmente). Mas, ao longo do caminho, eu fui entendendo algumas coisas e meu mundo se chocou com o de Carolina Maria de Jesus.

Para te contextualizar, essa mulher é autora do livro “Quarto de Despejo: Diário de uma favelada”, uma obra riquíssima que fala sobre sua vivência como trabalhadora e moradora da favela do Canindé, uma das primeiras favelas do Brasil. Carolina, que viveu a vida inteira como catadora de recicláveis, teve seu primeiro livro publicado quando tinha 46 anos e hoje é reconhecida como escritora, compositora e poetisa. Suas obras viraram teses, foram traduzidas para 13 idiomas e ela foi homenageada pela Academia Brasileira de Letras.

Apesar de dizer que não tinha o sonho de ser escritora e que só escrevia porque o sofrimento a obrigava, eu fico imaginando caso a Carolina tivesse tido o mesmo pensamento que o meu e achasse que não havia mais tempo? Como íamos viver em um mundo onde não conheceríamos essa mulher? Como eu, agoniada como fui um dia, ia ter essa mulher como exemplo e finalmente entender que: “Você nunca está atrasada para a vida que é só sua.”

*Nadia Araujo é colaboradora d’O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.