Por: Gustavo Girotto* e Raphael Anselmo**
Há candidatos que entram na história. Outros entram em auditórios no Texas.
Flávio Bolsonaro parece já ter entendido — ainda que não admita — que sua trajetória eleitoral tende menos a uma disputa e mais a um rito de passagem para a derrota.
Se a eleição entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro foi, de fato, um plebiscito em defesa da democracia, a que se avizinha flerta com algo mais constrangedor: um plebiscito sobre a utilidade de candidatos que terceirizam o país.
O centro do discurso de Flávio não é propriamente o Brasil — é o Brasil como serviço. Ao declarar que o país poderia ser “a solução da América” para reduzir a dependência chinesa em minerais críticos, o senador não apresentou uma estratégia nacional: apresentou um cardápio. Nesse gesto, Brasília deixa de ser capital e passa a ser filial — com sede emocional no Departamento de Defesa dos Estados Unidos.
Sua participação na Conservative Political Action Conference não foi exatamente um ato diplomático. Soou mais como um feirão geopolítico, onde o subsolo brasileiro apareceu como ativo em liquidação. Diante de uma plateia afeita ao slogan e pouco dada à sutileza, Flávio ofereceu o que não lhe pertence — como quem tenta pagar pedágio com a carteira alheia.
A retórica de “campo de batalha” ajuda a compor o quadro: não se trata de política externa, mas de uma fantasia de alinhamento automático. A equação implícita é simples — apoio internacional em troca de prioridade estratégica. O Brasil, nesse raciocínio, não negocia: se apresenta.
Como complemento, o senador sugeriu “monitoramento internacional” das eleições de 2026. Um gesto curioso vindo de quem, ao que tudo indica, já ensaia a narrativa da derrota antes mesmo da campanha começar. Pedir tutela externa sobre o próprio processo eleitoral é menos uma denúncia e mais uma confissão preventiva.
Enquanto isso, a realidade insiste em atrapalhar o enredo. Com indicadores econômicos que não corroboram o cenário de “crise devastadora” anunciado, o discurso soa deslocado — como um comentarista que descreve tempestade sob céu aberto. Não há catástrofe à vista, mas há um esforço retórico considerável para que ela pareça iminente.
No fim, o que se desenha não é uma disputa clássica entre projetos de país. É algo mais assimétrico: de um lado, a defesa — com todas as suas contradições — da soberania nacional; de outro, sua conversão em ativo negociável.
E, nesse contraste, Flávio Bolsonaro vai se apequenando até caber inteiro na própria proposta: não como protagonista de um projeto, mas como seu intermediário. Um atravessador de país — figura menor em um enredo que, definitivamente, não lhe pertence. Dólar abaixo de cinco, bolsa em recorde histórico.
Por fim, resta a Taquaritinga — e à sua claque política empoeirada — entender o óbvio ululante: vencer Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro nas urnas não é disputa ideológica, é higiene cívica — um gesto mínimo de quem ainda leva a sério a ideia de soberania nacional. E, nesta eleição, a disputa se dará em termos menos nobres do que os discursos sugerem: de um lado, a vassalagem travestida de pragmatismo; de outro, o patriotismo que ainda insiste em não entrar em liquidação. Entreguismo versus soberania — sem eufemismos.
E aí, políticos de Taquaritinga? Vão bater continência para o balcão de negócios ou lembrar, ainda que tardiamente, que o país não é mercadoria de prateleira da Marshalls ou Ross de Orlando?



