Por: Sérgio Sant‘Anna*
Há histórias brasileiras que parecem ter sido escritas por Machado de Assis depois de uma garrafa de uísque, três reuniões em Brasília e uma senha de celular esquecida sobre a mesa. O caso Banco Master, Daniel Vorcaro e sua extraordinária agenda de relações é uma delas. A diferença é que, em Machado, a ironia era literatura; aqui, a realidade resolveu concorrer com o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas — e, aparentemente, pretende levar o troféu.
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, tornou-se personagem central de uma investigação que, pelas mensagens e documentos divulgados, alcança diferentes ambientes da República. Políticos, empresários, advogados, ministros, familiares de autoridades e figuras do mercado aparecem, em graus distintos, no universo de contatos do banqueiro. A Polícia Federal encontrou mensagens com parlamentares desde 2022, e reportagens posteriores ampliaram o mapa das relações.
O mais curioso é que a agenda de Vorcaro parece ter sido escrita por alguém que acreditava sinceramente na tese de que o Brasil é pequeno demais para tanta gente importante. Em determinado momento, aparecem referências a ministros do Supremo; em outro, políticos de direita e de esquerda; depois, empresários e operadores do mercado. É como se a República tivesse virado uma enorme festa de aniversário — e Vorcaro fosse simultaneamente convidado, anfitrião, patrocinador e sujeito responsável pela lista da portaria.
As reportagens da Folha de S.Paulo identificaram registros envolvendo seis ministros do STF — Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e Gilmar Mendes — embora as relações sejam de naturezas diferentes e os próprios envolvidos apresentem explicações ou negativas em relação às interpretações feitas sobre elas. A palavra mais perigosa, portanto, talvez não seja “amizade”, mas “proximidade”. Amizade é coisa de fotografia; proximidade, às vezes, exige perícia.
E então aparece Alexandre de Moraes. Segundo mensagens analisadas pela PF, Vorcaro chegou a perguntar ao ministro se deveria deixar o país pouco antes de sua prisão, em novembro de 2025. Também foram divulgadas informações sobre um almoço organizado por Vorcaro para Moraes em Campos do Jordão, em 2023. A existência desses contatos está documentada nas reportagens; o significado jurídico de cada contato é outra história — e justamente essa outra história é que as instituições precisam esclarecer.
Com André Mendonça, a trama ganha outro capítulo. Mensagens indicam encontro entre o ministro e Vorcaro em março de 2025, articulado pelo deputado Cezinha de Madureira, além de convites relacionados ao Instituto Iter. Mendonça confirmou um encontro, mas apresentou duração e finalidade diferentes das indicadas nas mensagens divulgadas. Mais tarde, sua relação societária com o instituto também entrou no debate público. No Brasil, até o cafezinho precisa de ata quando o assunto é Supremo.
Dias Toffoli também entrou no labirinto. Ele deixou a relatoria do caso Master depois de informações encaminhadas pela Polícia Federal ao presidente do STF sobre transferências financeiras envolvendo empresa de sua família e fundos ligados ao banco. Reportagens também registraram viagem de Toffoli em aeronave de empresa relacionada a Vorcaro. Toffoli contestou questionamentos sobre sua atuação e afirmou, no plenário, que magistrados podem ter empresas. Kafka, se estivesse vivo, talvez pedisse um estágio em Brasília.
Depois vem Kassio Nunes Marques, cujo entorno familiar apareceu em reportagens relacionadas a pagamentos feitos por uma consultoria que também recebeu recursos do Master. A própria documentação pública ressalva que isso não demonstra, por si só, que os valores pagos ao escritório do filho do ministro tenham origem nos recursos transferidos pelo banco. Eis aí uma importante diferença entre jornalismo e fofoca: o primeiro precisa dizer também aquilo que ainda não está provado.
Luiz Fux aparece em outro capítulo, envolvendo o filho Rodrigo Fux e eventos nos quais Vorcaro esteve presente. As reportagens mencionam mensagens, encontros e despesas relacionadas a uma homenagem em Nova York; o ministro afirmou que nunca teve relação com Vorcaro, enquanto o escritório do filho negou ter prestado serviços ou recebido valores do banqueiro ou do Master. No país de Noel Rosa, até a frase “não conheço” já ganhou uma tradição literária própria.
E Gilmar Mendes? Também aparece no mapa, embora novamente seja necessário separar o ministro das pessoas de seu entorno. Reportagens mencionam a contratação, por Vorcaro, de Francisco Feitosa, ex-cunhado do ministro, para assuntos relacionados a universidades. Há ainda referências a uma advogada ligada ao IDP. Gilmar negou sociedade com a advogada e afirmou que não tratou com os envolvidos sobre cursos de medicina. É uma daquelas situações em que a árvore genealógica brasileira parece precisar de um departamento de compliance.
Mas a República não termina no Supremo. O universo político também aparece em diversas direções ideológicas. Reportagens mencionaram Lula, Jair Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro, ACM Neto, governadores, parlamentares e outras figuras públicas, embora os vínculos sejam diferentes entre si e não possam ser transformados automaticamente em prova de irregularidade. Isso produz uma curiosidade quase sociológica: quando o dinheiro atravessa a Esplanada, aparentemente não pergunta em quem você votou.
Até Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, aparece agora nas notícias. Mensagens analisadas pela PF indicam que ele convidou Vorcaro para um encontro em sua residência, em 2023, quando ainda presidia o BC. O contato ocorreu no contexto da aproximação de Vorcaro com o setor bancário, enquanto a autorização para a entrada do banqueiro no controle do Banco Máxima havia ocorrido em 2019, durante a gestão de Campos Neto. As implicações éticas e jurídicas dessas relações estão sendo examinadas, e não se deve confundir encontro ou contato com comprovação de ilícito.
Aristóteles talvez chamasse isso de política; Maquiavel provavelmente pediria uma cadeira mais confortável; Hobbes lembraria que o poder organiza os homens em torno de interesses; Foucault perguntaria quem vigia os que vigiam. E eu, professor de Língua Portuguesa, fico imaginando como seria uma questão de interpretação sobre o caso: “Identifique, no texto, o sujeito oculto.” A resposta talvez fosse: “Depende de quem está na agenda do celular.”
Na música brasileira, Chico Buarque já nos ensinou que há personagens que atravessam portas, mesas e gabinetes com uma naturalidade impressionante. Raul Seixas cantou sobre “sociedade alternativa”; Cazuza perguntou quem seria o futuro da nação; Renato Russo descreveu um país em que “ninguém respeita a Constituição”. De repente, a trilha sonora do escândalo parece pronta. Só faltaria o DJ anunciar: “Agora, para todos os convidados da República, aquela clássica: Que país é este?”.
E talvez seja justamente aí que a história deixe de ser apenas sobre Vorcaro, Master, STF, Congresso, empresários ou políticos. O ponto mais incômodo é outro: uma democracia saudável precisa conseguir distinguir relações pessoais de relações institucionais, encontros de influência, contratos de favorecimento, amizade de interesse, suspeita de prova e acusação de condenação. O celular de um banqueiro pode revelar uma agenda extraordinária; não pode, sozinho, substituir investigação, contraditório e julgamento.
Porque o Brasil já teve seus Brasis particulares: o de Lima Barreto, desconfiado das engrenagens do poder; o de Machado, especialista em enxergar a alma dos interesses; o de Sérgio Buarque, tentando compreender nossas relações pessoais e institucionais; o de Nelson Rodrigues, que transformava hipocrisia em espetáculo. O caso Master parece reunir todos eles numa única sala — e ainda sobra lugar para mais uma cadeira.
No fim, resta uma pergunta menos engraçada do que o título desta crônica: quantas relações entre dinheiro e poder uma República consegue suportar antes que a confiança pública comece a ruir? Não cabe à crônica condenar ninguém, tampouco absolver. Cabe-lhe fazer aquilo que a literatura sempre fez quando a realidade fica absurda demais: acender a luz, apontar para a cena e perguntar, com Machado de Assis sorrindo no canto da página: “Meus senhores, será que alguém realmente acredita que ninguém estava vendo?”




