sábado, 3 outubro, 2026
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Artigo: A coragem de Flávio e o tamanho de Renan

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Há homens que parecem corajosos até que alguém lhes entregue um microfone. Flávio Bolsonaro vinha construindo, como tantos políticos de sua família, uma persona de enfrentamento.

É uma especialidade conhecida: voz firme, sobrancelha carregada, inimigos em quantidade e a certeza de que o mundo está sempre a um passo de uma conspiração. Então apareceu Renan Santos.

Não Putin. Não Xi Jinping. Não um presidente estrangeiro com tropas na fronteira, sanções na gaveta e uma assessoria diplomática treinada para não sorrir. Renan, um menino.

Um candidato. Um adversário eleitoral. Um garoto que, em condições normais de uma democracia, deveria representar exatamente aquilo que um pretendente à Presidência diz desejar: o confronto de ideias diante do eleitor.

Foi quando aconteceu o inesperado. Flávio afinou. A justificativa oficial veio embrulhada em argumentos jurídicos. As mudanças no formato do debate, determinadas pela Justiça, seriam inaceitáveis.

Havia uma questão de princípio, segundo sua versão. Pode ser. A política, como se sabe, oferece sempre uma explicação razoável para quase tudo.

Mas existe uma característica peculiar da política: a explicação oficial nem sempre é a história que o público guarda. E o que ficou foi uma imagem. A de um candidato à Presidência que, diante da entrada de um adversário no debate, acabou ficando fora dele. Renan, evidentemente, adorou.

Não precisava nem de marqueteiro. A cena já vinha pronta. É difícil imaginar propaganda melhor para quem quer construir a imagem de um desafiante. Bastou a cadeira vazia do adversário. A política brasileira é pródiga em situações assim.

O sujeito passa meses dizendo que não teme ninguém e, quando surge alguém disposto a discutir com ele, descobre subitamente a importância dos regulamentos.

É uma espécie curiosa de coragem.

A coragem com asterisco. A coragem desde que o adversário seja escolhido. O ato destemido desde que o palco esteja sob controle.

A coragem desde que as perguntas sejam previsíveis e o outro lado não resolva aparecer.

O problema é que a Presidência da República não funciona assim.

O presidente não escolhe Putin. Não escolhe Xi. Não escolhe Trump, embora esse Flávio entrega a alma e a soberania.

Não escolhe uma guerra ou uma crise econômica. Não escolhe uma crise institucional.

E, definitivamente, não escolhe quem vai se sentar do outro lado da mesa. Essa é a parte pouco glamourosa do cargo.

O Brasil pode eleger alguém para o Palácio do Planalto. Mas ninguém elege o mundo que estará esperando do lado de fora. É por isso que debates são mais importantes do que parecem. Não porque um candidato necessariamente vá convencer o adversário — isso raramente acontece —, mas porque o eleitor observa como ele reage quando alguém o contraria.

É fácil parecer forte quando todos ao redor concordam. A verdadeira dificuldade começa quando alguém interrompe, discorda, provoca, acusa e não segue o roteiro.

É justamente aí que se mede alguma coisa.

Não necessariamente competência ou caráter. Muito menos capacidade de governar. Mas, ao menos, disposição para o confronto público.

E foi nesse ambiente que Lula encontrou uma oportunidade que seus adversários talvez tenham lhe oferecido sem perceber. Enquanto o debate da Globo se transformava numa novela sobre quem iria ou não iria, Lula estava no Flow.

Mais de 1,5 milhão de pessoas, segundo os números divulgados sobre a transmissão, acompanharam a entrevista. Ali, Lula fez o que políticos fazem quando encontram um palco sem adversário presente: enquadrou.

Mostrou o quão Flávio é “desqualificado”, disse que ele “não tem passado, não tem presente e não tem futuro” e afirmou que o senador “nunca trabalhou na vida”. Nenhuma mentira.

Mas a política não vive apenas de fatos. E, naquele momento, Lula conseguiu uma coisa que talvez fosse justamente o que Flávio deveria querer evitar: colocou o nome do adversário no centro da conversa sem precisar enfrentá-lo.

A estratégia é quase infantil de tão eficiente.

Um candidato está em primeiro lugar nas pesquisas. Seus adversários precisam atacá-lo, produzir contraste, alcançar os indecisos e transformar cada aparição pública em oportunidade para diminuir sua vantagem.

Mas, se os adversários passam o tempo falando de si mesmos — ou explicando por que não vão debater —, o candidato que lidera agradece. Política é estratégia. E estratégia não é apenas escolher onde atacar.

É também saber quando não entregar ao adversário uma arma gratuita.

Renan ganhou uma cadeira.

Flávio ganhou uma justificativa. Lula ganhou assunto.

E o eleitor ganhou uma pergunta. Talvez seja a mais simples de todas: – se um candidato quer ser presidente, por que deveria precisar escolher quem pode enfrentá-lo?

Há uma certa poesia involuntária na política. O sujeito passa anos dizendo que está pronto para a batalha. Até que a batalha chega. E ele descobre que tinha imaginado outra coisa.

Talvez Flávio não tenha afinado. Talvez tenha apenas tomado uma decisão estratégica.

Talvez tenha defendido um princípio.

Talvez tenha considerado inaceitáveis as mudanças no debate. Tudo isso é possível.

Mas há uma inconveniente liberdade que ninguém consegue impedir:

o eleitor pode olhar para a cadeira vazia e tirar suas próprias conclusões.

E, numa eleição presidencial, às vezes uma cadeira vazia ocupa mais espaço do que um candidato inteiro. Lula sabe disse, menos Flávio – que consegue perder a narrativa para um garoto chamado Renan.

Lula escolheu ir ao Flow — que, no sentido da teoria do psicólogo húngaro-americano Mihály Csíkszentmihályi, é justamente quando alguém entra em estado de concentração total, domina o ambiente e se deixa levar pelo ritmo da conversa. Lula só foi no flow…

Gustavo Girotto é jornalista. Raphael Anselmo é economista. Ambos são progressistas!

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.