sábado, 31 outubro, 2026
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Crônica: O amor em tempos de ódio

Quando foi que desaprendemos a olhar para o outro?

Por: Sérgio Sant’Anna*

Há algo de profundamente contraditório na humanidade: nunca tivemos tantos meios de comunicação e, paradoxalmente, parece que nunca nos comunicamos tão mal. Temos milhares de amigos nas redes sociais, mas poucos a quem oferecer um abraço verdadeiro. Compartilhamos frases sobre amor, publicamos fotografias com mensagens de paz, reproduzimos versículos bíblicos e, minutos depois, somos capazes de destilar veneno contra alguém que pensa diferente. É curioso: a humanidade inventou a inteligência artificial, mas ainda não conseguiu ensinar algumas pessoas a desenvolver a inteligência emocional. Talvez seja essa a nossa maior tragédia contemporânea.

Tenho observado, com certa inquietação, a facilidade com que transformamos divergências em inimizades. Basta uma opinião política, uma manifestação contrária, uma escolha eleitoral ou uma simples discordância para que o outro deixe de ser humano e passe a ser tratado como adversário, inimigo ou alguém que merece ser eliminado do nosso convívio. As últimas eleições brasileiras, com suas disputas, paixões e feridas políticas, mais uma vez escancararam essa dificuldade de convivência. Famílias se desentenderam, amizades foram interrompidas, grupos se dividiram e, em determinados momentos, parecia que escolher um candidato significava também escolher quem merecia ou não receber o nosso respeito. Ora, desde quando a democracia exige que abandonemos a humanidade?

É evidente que não precisamos concordar com tudo. Aliás, uma sociedade democrática se alimenta do contraditório, da pluralidade e da possibilidade de questionamento. O problema começa quando a discordância deixa de ser um exercício de cidadania e se transforma em autorização para humilhar, desqualificar e desejar o sofrimento alheio. Há pessoas que confundem convicção com arrogância e liberdade de expressão com licença para a crueldade. Defendem a família, mas não conseguem conversar com o próprio irmão; pregam valores cristãos, mas cultivam ressentimentos; falam em liberdade, desde que o outro não tenha o direito de pensar diferente. Uma espécie de cristianismo seletivo, democracia conveniente e amor com horário de funcionamento.

Renato Russo, que parecia compreender algumas das contradições mais dolorosas de nosso tempo, deixou em suas canções um legado que continua a nos provocar. Em Monte Castelo, da Legião Urbana, encontramos uma das mais belas aproximações entre a literatura e a espiritualidade: a composição dialoga com o célebre capítulo 13 da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios e com o soneto de Luís de Camões sobre o amor. A mensagem é contundente: o amor não é apenas um sentimento agradável, uma fotografia bonita ou uma declaração feita em momentos convenientes. É uma disposição diante da vida, uma escolha cotidiana, uma responsabilidade. Em Pais e Filhos, Renato nos recorda a fragilidade dos vínculos humanos e a necessidade de atenção, acolhimento e cuidado. Já Há Tempos nos oferece uma reflexão melancólica sobre a perda de valores e a dificuldade de preservar aquilo que realmente importa. E, em Perfeição, a ironia se transforma em instrumento de denúncia: por trás da aparente celebração, revela-se um retrato ácido de nossas contradições sociais.

Há uma passagem bíblica que deveria ser lida não apenas nas celebrações religiosas, mas também antes de qualquer discussão nas redes sociais: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Marcos 12:31). Parece simples, não é? Entretanto, talvez seja uma das recomendações mais desobedecidas da história. Em Mateus 5:44, Jesus propõe algo ainda mais desafiador: amar os inimigos e orar por aqueles que perseguem. Não se trata de aceitar injustiças, compactuar com violências ou permanecer em silêncio diante da intolerância. Trata-se de não permitir que o ódio do outro determine aquilo em que nos transformaremos. Afinal, combater a crueldade reproduzindo a crueldade é apenas mudar o endereço da violência.

O filósofo Emmanuel Lévinas, ao desenvolver sua reflexão sobre a alteridade, coloca o encontro com o rosto do outro no centro da responsabilidade ética. Em outras palavras, o outro não é uma extensão das minhas vontades, tampouco alguém que precisa pensar como eu para merecer consideração. Ele existe, sente, sofre, tem histórias e carrega suas próprias contradições. Immanuel Kant, por sua vez, defendia que o ser humano jamais deveria ser tratado apenas como um meio, mas sempre como um fim em si mesmo. Talvez precisássemos recuperar essas duas lições antes de escrever nossos comentários nas redes sociais. Afinal, por trás de cada fotografia existe uma vida que não conhecemos; por trás de cada opinião, uma história que nem sempre compreendemos.

E já que estamos falando de amor, convém lembrar que a literatura sempre encontrou maneiras de denunciar a ausência dele. No Romantismo, o sentimento ganhou dimensão grandiosa, por vezes idealizada, como se o amor pudesse vencer todas as barreiras. No Realismo, entretanto, escritores como Machado de Assis começaram a expor as hipocrisias, os interesses e as contradições humanas. Victor Hugo, em Os Miseráveis, construiu uma das mais poderosas narrativas sobre compaixão, justiça e redenção, mostrando como um gesto de bondade pode transformar uma existência. Dostoiévski, em Os Irmãos Karamázov, mergulhou nas profundezas da consciência humana e nas responsabilidades que temos uns pelos outros. A literatura, portanto, há séculos tenta nos ensinar aquilo que ainda insistimos em ignorar: não basta existir ao lado de alguém; é preciso reconhecer sua humanidade.

Nas artes visuais, também encontramos esse apelo. Em O Retorno do Filho Pródigo, de Rembrandt, o abraço do pai ao filho arrependido representa uma das imagens mais emocionantes da misericórdia humana. Não há ali um interrogatório, uma humilhação pública ou uma exigência de perfeição. Há acolhimento. Já Guernica, de Pablo Picasso, embora não represente diretamente o amor romântico ou fraternal, denuncia a brutalidade da guerra e a destruição da vida provocada pela intolerância. É como se a pintura gritasse aquilo que tantas vezes esquecemos: quando o ódio assume o comando, ninguém sai verdadeiramente vencedor. O Expressionismo, ao expor angústias e sofrimentos, e o Humanismo renascentista, ao recolocar o ser humano no centro das reflexões artísticas, também nos oferecem caminhos para compreender a urgência de recuperar a sensibilidade.

Entretanto, há uma pergunta incômoda: por que somos tão generosos com as palavras e tão econômicos com os gestos? Distribuímos mensagens sobre gratidão, mas não temos paciência para ouvir um idoso; publicamos homenagens à amizade, mas abandonamos alguém quando ele atravessa dificuldades; falamos sobre solidariedade, mas desviamos o olhar diante de quem precisa de ajuda. O filósofo Aristóteles já compreendia a amizade como uma virtude essencial à vida humana. Erich Fromm, em A Arte de Amar, defendia que amar exige conhecimento, responsabilidade, respeito e cuidado. Portanto, amar não é simplesmente sentir alguma coisa. É agir. É compreender que o mundo não foi construído exclusivamente para satisfazer nossas expectativas.

E o que dizer da política? As eleições de 2026 deixaram novamente evidente o tamanho da nossa dificuldade de conviver com as diferenças. Depois de uma disputa presidencial extremamente acirrada, com Lula reeleito no segundo turno, por 51,79% dos votos válidos, diante dos 48,21% de Flávio Bolsonaro, seria razoável imaginar que o país precisasse reconstruir pontes. Entretanto, parece que algumas pessoas preferem continuar vivendo em campanha eleitoral permanente. Há quem não consiga conversar sobre futebol sem mencionar política, não consiga almoçar em família sem transformar a sobremesa em debate ideológico e não consiga desejar feliz aniversário sem investigar previamente o posicionamento político do aniversariante. Estamos diante de uma curiosa modalidade de intolerância: aquela que se fantasia de consciência política, mas frequentemente esconde a incapacidade de respeitar o próximo.

Uma pesquisa Datafolha divulgada em outubro de 2026 revelou que 78% dos brasileiros percebiam o país como politicamente polarizado. O número deveria nos fazer refletir. Não porque seja necessário abandonar nossas convicções, mas porque uma democracia não pode depender da destruição dos vínculos humanos. Podemos defender projetos políticos diferentes, criticar governos, cobrar representantes, denunciar injustiças e discordar profundamente das decisões de um presidente. Tudo isso faz parte da cidadania. O que não podemos é transformar o eleitor em inimigo, o vizinho em ameaça e o familiar em alguém indigno de afeto. O voto termina na urna; a convivência, não. O mandato tem prazo; a humanidade deveria ser permanente.

Talvez precisemos compreender que empatia não significa concordar com o absurdo, aceitar a violência ou fechar os olhos diante das injustiças. Empatia também exige posicionamento. Hannah Arendt, ao refletir sobre a responsabilidade individual e a vida pública, mostrou a importância de pensar criticamente e não simplesmente aderir às ideias dominantes. Martin Luther King Jr., por sua vez, lutou contra o racismo sem abandonar a defesa da dignidade humana. Sua trajetória demonstra que é possível combater estruturas injustas sem transformar o ódio em princípio de existência. O amor, nesse sentido, não é fraqueza. É uma forma de resistência.

Lembro-me também de Carlos Drummond de Andrade e de seus versos em Mãos dadas, nos quais o poeta propõe que caminhemos juntos, atentos à realidade concreta, sem nos refugiarmos em um passado idealizado ou em promessas vazias. Há uma beleza particular nessa ideia de compartilhar o caminho. Não precisamos ser iguais, ter as mesmas crenças, votar nos mesmos candidatos ou ouvir as mesmas músicas. Precisamos apenas reconhecer que a vida é breve demais para desperdiçá-la construindo muros onde poderiam existir pontes.

Talvez o maior desafio de nossa geração seja reaprender a amar sem transformar o amor em discurso de ocasião. Amar o próximo não significa gostar de todas as pessoas, tampouco concordar com suas escolhas. Significa não desejar sua destruição simplesmente porque ela pensa diferente. Significa compreender que ninguém é obrigado a compartilhar nossas convicções para merecer respeito. E, se a religião ocupa um lugar importante em nossa vida, talvez seja oportuno lembrar que Jesus não nos pediu para amar apenas aqueles que frequentam a mesma igreja, defendem os mesmos valores ou votam nos mesmos candidatos. Pediu-nos para amar o próximo. Aparentemente, esquecemos justamente a parte mais difícil da recomendação.

Por fim, gostaria de acreditar que ainda há espaço para uma sociedade menos agressiva, menos ressentida e mais humana. Que possamos ouvir Renato Russo novamente, não apenas cantarolar Monte Castelo em uma reunião de amigos, mas compreender a dimensão de sua mensagem. Que possamos olhar para Rembrandt, ler Victor Hugo, revisitar Camões, refletir com Lévinas e, quem sabe, aprender alguma coisa com os ensinamentos que carregamos nos próprios livros sagrados. Que a política não nos roube os amigos, que as ideologias não nos afastem das famílias e que as diferenças não nos façam esquecer a delicadeza.     Afinal, um dia, quando as eleições já forem apenas páginas nos livros de História, os candidatos terão seguido seus caminhos, os partidos terão mudado suas bandeiras e os discursos terão perdido a força. Mas as pessoas que amamos continuarão fazendo falta se as perdermos pelo caminho. E talvez seja justamente essa a grande ironia da existência: passamos tanto tempo tentando provar que estamos certos que, às vezes, terminamos completamente errados naquilo que realmente importa. O mundo não precisa de mais pessoas dispostas a vencer discussões. Precisa de pessoas dispostas a não perder umas às outras.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.