sábado, 31 outubro, 2026
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Arte em Foco: O Estatuto da Aparência 

Por: Larissa Cabreira*

O Halloween é o único dia do calendário em que todo mundo concorda que a máscara é máscara. Ninguém se apavora de verdade com o vampiro da esquina, porque o combinado já está dado de antemão. A fantasia funciona por causa desse acordo silencioso entre quem veste e quem olha, e é justamente isso que a torna um gesto honesto. 

Ela avisa.

Eu, aliás, tenho um motivo extra para gostar da data. Faço trinta anos no domingo, dia 1º de novembro, e vou comemorar na véspera, no dia das bruxas. Nascer no dia seguinte ao mais assustador do ano dá a qualquer aniversariante uma assessoria de imprensa excelente.

A arte conhece bem essa fronteira entre o disfarce que avisa e o disfarce que engana. 

James Ensor encheu suas telas de máscaras e esqueletos para mostrar que uma multidão, às vezes, é feita de rostos que não são rostos. 

“A Entrada de Cristo em Bruxelas”, de James Ensor, 1889. Crédito da imagem: classicpaintings / Alamy Stock Photo.

René Magritte pintou um cachimbo no fim dos anos 1920 e escreveu logo abaixo que aquilo não era um cachimbo. Era uma das frases mais úteis da história da arte, porque lembra que imagem não é a coisa, é só a imagem dela.

A traição das imagens (1929), de René Magritte. (Foto: reprodução)

O verdadeiro terror de outubro, o que continua depois que a festa acaba, é a máscara que não avisa. 

A notícia falsa é uma fantasia sem festa, um disfarce que insiste em ser rosto. Chega num vídeo antigo reapresentado como se fosse de ontem, numa frase cortada no meio, numa imagem que parece prova. E, ao contrário do vampiro da esquina, não vai embora quando as luzes se acendem. Por isso vale o exercício de Magritte, olhar duas vezes antes de repassar.

Toda arte também tem o seu jeito de encerrar uma cena. 

O pano desce, o ator agradece, o esgrimista cumprimenta o adversário antes de sair da pista. Quem ganha e quem perde fazem o mesmo gesto, e é ele que diz que o jogo foi jogado de verdade e que acabou. Aceitar o fim de um ato não diminui ninguém. É o que permite que o próximo comece. E quem vence também precisa saber descer do palco sem pisar em ninguém.

Trinta anos me ensinaram a preferir as fantasias honestas. 

Há quem passe tanto tempo tentando convencer os outros de que veste a verdade que acaba confundindo convicção com evidência. Mas nenhuma aparência se torna legítima apenas pela insistência, assim como nenhuma mentira se transforma em fato pelo número de vezes que é repetida.

Que a gente atravesse este fim de mês com nossas fantasias declaradas e que, quando as luzes voltarem, cada um reencontre o próprio rosto, sem disfarce, e saiba olhar para o dos outros duas vezes.

*Larissa Cabreira é colaboradora do Jornal O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.