O respiro da esquerda no predomínio bolsonarista
Por: Isabela Nascimento*
Com a profusão de informações, bandeiras e candidatos a deputado, governador e senador do primeiro turno, foi difícil visualizar a campanha majoritária, e isso não aconteceu só em nosso município. A presença de outros candidatos à presidência também fez com que os eleitores mais ao centro espalhassem votos para Renan Santos, Caiado, Zema e, de modo especial, Augusto Cury, construindo, assim, um segundo turno que assustou como nunca antes os eleitores da esquerda. A polarização era conhecida: golpismo versus democracia, personificados nas figuras de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, respectivamente. Em Taquaritinga, 60,1% (16.556) da cidade depositou seu voto no candidato do PL, enquanto 31,4% (8.644 votos) apostaram na reeleição de Lula. Na certeza de que as pessoas viam as benfeitorias do terceiro mandato do petista e de que a reeleição era caminho certo, a militância se deparou com uma quebra de expectativa – não a nível de cidade, esse já era esperado – uma desvantagem de 2.224.965 milhões de votos, colocou Lula em segundo lugar na disputa com um perigoso senador do Rio de Janeiro.
A segunda-feira foi carregada de um misto de sensações: medo, revolta, desânimo e o grande ponto de interrogação: como acompanhar as mobilizações pró-Lula em uma cidade do interior de São Paulo? Aqui e ali, os progressistas começaram a se movimentar, grupos de mulheres, grupos para análise de números, manifestos pela democracia nas redes e um propulsor do levante taquaritinguense: o grupo “Fora Bolsonaro”. É bonito falar dos sentidos presentes na criação desse grupo de Whatsapp, datada em 28 de maio de 2021. Seu objetivo primeiro foi organizar a militância a respeito da negligência durante a pandemia da COVID-19. Com a vitória de Lula/Alckmin em 2022, o grupo recebe o nome de “União e reconstrução” reafirmando a união de taquaritinguenses progressistas na luta contra os retrocessos locais e nacionais. Em 6 de outubro de 2026, o grupo foi o “start” para a campanha de vira voto, seu nome foi alterado por uma administradora e assim iniciaram o envio do link para mais gente entrar, deixando a esperança substituir o derrotismo da noite anterior.

O grupo foi crescendo dia após dia. Dali surgiram reuniões, deliberações e muito senso coletivo, abrangendo igualmente as orientações do Exército de Janones: rede e rua. Um bonito encontro da “Juventude e democracia” com batalha de rima; caminhadas pelos bairros, vídeos e manifestos, carros de som, áudios e o principal: a busca diária e cotidiana pelo vira voto. Um acalento chegava ao coração a cada vez que aumentava o número de respostas na enquete sobre a quantidade de votos já virados. Foram vinte dias de um diálogo permanente entre pessoas que não se conheciam pessoalmente, mas que se sentiam próximas e humanizadas umas com as outras, porque a luta constrói afetos firmes. Eis o resultado: Flávio cresceu 1.405 votos enquanto Luiz Inácio foi de oito para onze mil, totalizando um aumento de três mil votos. Sua votação cresceu em todos os bairros da cidade no segundo turno.
Há que se destacar a simbologia de onde Lula cresceu significativamente: no Jardim São Sebastião, com vitória em diversas seções, Lula cresceu 370 votos e alcançou um empate técnico com Flávio. No Jardim Paraíso, o crescimento também foi expressivo, mas foi no “Loteamento Dr. Adail Nunes da Silva, conhecido como CAIC, que Lula ganhou o segundo turno, com 294 votos a mais depositados nas urnas. Os números mostram que a mensagem de luta chegou ao povo trabalhador e periférico de nossa cidade, um despertar de consciência social que levou eleitores e eleitoras a repensarem o voto, escolhendo o presidente trabalhador que fora estigmatizado por seu acidente de trabalho no último debate presidencial. Vale lembrar que na cidade de Taquaritinga, 53% do eleitorado é feminino: muitas mulheres abriram os olhos para o contexto arriscado e tomaram a decisão pensando no futuro e nos direitos de suas filhas, amigas e irmãs.
Não preciso nem dizer da comemoração de esquerda mais bonita e liberta que tivemos nos últimos tempos, saímos de nossas casas com alguma apreensão, mas, ao pisar nas ruas e ouvir as buzinas, ver o balançar das bandeiras, dedos em forma de L e escutar o ronco da moto dos entregadores e moradores, foi incomparável. Em plena avenida Paulo Roberto Scandar – que se encontrava preparada para a vitória bolsonarista horas antes – ocupamos o nosso espaço e extravasamos alegria e alívio. E, ao contrário do que o radialista amante de “Fake News” disse, estávamos envolvidos em abraços, risadas, gritos de alegria e até uma imagem de Nossa Senhora surgiu em um carro abençoando os presentes.
Ao jornalista conterrâneo que expos – vergonhosamente – seus achismos sobre o movimento eleitoral de nossa cidade, listo aqui alguns FATOS: 1. Não houve tempestade no domingo, houve chuva forte que cessou antes do meio dia, e mesmo quando chovia, as pessoas chegavam, arrisco que dizer que pouco importa uma roupa molhada quando direitos estão em jogo. 2. Uma mobilização modesta continua sendo muito mais mobilização do que o nada bolsonarista. Se a conta é essa, fazer carreata no centro da cidade uma única vez deu tantos votos ao filho do Bolsonaro? 3. Uma cidade “historicamente” de direita, não significa uma cidade TODA de direita. E se prepare, pois os jovens vêm com tudo nos próximos anos, Taquaritinga não será para sempre cristalizada em seus dissabores. 4. Por fim, respondo-lhe que sim. Houve um milagre. E foi justamente o milagre de assegurar a nossa democracia por mais quatro anos.
Nesse texto não citarei nomes, profissões ou sobrenomes, porque a luta foi coletiva: um escreve, o outro publica, um leva a caixa de som, o outro faz o cartaz, um empresta o carro, o outro segura a bandeira, um vai na porta da fábrica, o outro grava um vídeo. De todas as idades e de todas as classes. São reflexos do ideal de justiça social que carregamos conosco. Somos poucos, mas somos fortes. Somos Lula tetra. Somos “Brasil pronto para mais!”




