quinta-feira, 2 abril, 2026

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Crônica: Lindomares, Docas

As ruas ficaram menos violentas, mas os lares intensificaram a ira de seus habitantes

Por: Sérgio Sant’Anna*

No elevador mulher é golpeada no rosto por 63 vezes pelo suposto namorado. Marido mata esposa e filho de cinco anos por ciúme. Homem arrasta mulher na traseira do carro por mais de 5km. Segundo o Instituto de Pesquisa DataSenado, a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher revela que 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar em 2025. Entre as vítimas de violência no último ano, 71% afirmaram que havia crianças presentes durante a agressão, das quais uma parcela significativa eram filhos e filhas das vítimas. Ainda de acordo com a pesquisa, 88% das mulheres alegaram sofrer violência psicológica constante. O excesso de bebidas alcoólicas, além do uso de drogas ilícitas são agravantes para o uso da violência por parte dos homens diante da violência doméstica. O Ligue 180 realizou mais de 16 milhões de atendimento nesta década que ainda não se encerrou. Um absurdo. Dados que revelam a brutalidade e selvageria contra as mulheres. Supostos casamentos bem-sucedidos, alimentados pelo poder e a riqueza são também alvos desses que se utilizam desse pseudopoder para agredir e matar.

Dois casos que se tornaram famosos diante da Justiça brasileira foram o  assassinato de Angela Diniz pelo suposto namorado Doca Street em 30 de dezembro de 1976 com um tiro na nuca e outros três no rosto. Doca foi julgado por duas vezes e teve sua pena reduzida pela tese da legítima defesa da honra, elemento jurídico abolido pela Justiça em 2023, porém ainda usado por homens que ainda acham que detêm o poder sobre suas mulheres. Lindomar Castilho, mais conhecido como o Rei do Bolero, autor de músicas consagradas entre os brasileiros, assassinou sua ex-esposa, a cantora e atriz Eliane de Grammont com cinco tiros pelas costas enquanto ela cantava numa casa de shows em São Paulo ao lado do primo de Lindomar (motivo do ciúmes do cantor de boleros famosos). O crime ocorreu em 1979, porém Lindomar só foi condenado em 1984 por um júri popular, saindo da penitenciária em 1996. Confesso que esses dois casos sempre fizeram parte do meu imaginário, assim como o de milhões de brasileiros que atônitos jamais esperam que um casal chegue a este nível de ignorância por parte do sexo masculino. E, de acordo com os dados, os números aumentam a cada dia, mesmo com leis como “Maria da Penha” e “Lei contra o feminicídio – Lei 13104/15”, além do agravamento da pena através da Lei 14994/24 que introduziu o “Pacote Antifeminicídio”.

A explicação para tamanha violência é detalhada pela história, ou seja, ao longo de milênios o sexo feminino sempre fora tratado como um apêndice do sexo masculino. A mulher aquela que apenas paria, cuidava dos filhos, da casa, agradava o seu homem sexualmente, enquanto ele era o protetor, o genitor, aquele que através da força conseguia tudo aquilo que desejava. No princípio ela nasce da costela de Adão, comete o primeiro pecado e nos conduz a uma vida de incertezas. Na mitologia Zeus é pai de Atena, e esta nasce da cabeça do deus dos deuses, adulta e armada, após seu pai ter engolido sua mãe, Métis, evitando que um filho dela o destronasse. Assim, Charles Perrault nos traz a história do conde de Barba Azul e suas várias esposas mortas, delegando à mulher a fragilidade e obediência ao sexo oposto. E durante esses milênios a caminhada feminina foi atrelada a essa obediência, a essa obrigação, ao casamento forçado, à junção de bens, ao amor nunca correspondido. Mas, afinal o que ocorre para esse aumento nos casos de feminicídio de hoje? Fatores, que se associam ao medo, às ameaças, ao uso da força como a história nos mostra. E isso muitas vezes consentido pelo Estado, pela Religião e, também, sacramentado pela sociedade ao fechar os olhos e fingir que não viu nada, que em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher. Absurdos que trouxeram como consequência essa onda de assassinatos e crimes contra a mulher.

Certa vez, numa conversa entre amigos, uma amiga pergunta: Mas, por que homem e mulher devem dormir na mesma cama? Confesso que são questionamentos que muitas vezes não os fazemos por acreditarmos ser natural, contudo são regras criadas pelo patriarcado, para assim ter a certeza de que aquela mulher esta sob sua guarda, diante da vigia de seus olhos…mais um absurdo. E assim, leis, ambientes de trabalho, a sociedade se comporta, excluindo o sexo feminino dos postos mais altos, pagando salários inferiores, reduzindo a mulher à fragilidade e atrelando a ela serviços domésticos, que o sexo masculino, devido sua virilidade, não pode e não deve executar. Desde cedo ao filho do sexo masculino são determinadas cores a serem usadas, assim como brinquedos a serem utilizados; quando jovem chegam os vestibulares e a divisão das profissões entre as masculinas e femininas – retrocesso que ainda persiste.

Para finalizar: e não será apenas através denúncias, embora seja um dos caminhos, que conseguiremos coibir tal mal, a educação é a fonte. Seja nas escolas e colégios ou mesmo em casa, a liberdade deve ser apresentada ao lado da responsabilidade. Não se pode mais conviver com pensamentos arcaicos e ideias encarceradas. A transformação está na formação de uma nova sociedade, que tenha a criticidade diante da violência encarcerada.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.