Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
Demorou, mas caiu — dizem — Maduro.
Convém não confundir a queda de um ditador com a ascensão de algum princípio civilizatório.
Em nenhum momento Donald Trump afirmou que pretendia restaurar a democracia venezuelana. Nem precisava. O objetivo sempre foi claro, tangível, mensurável em barris: petróleo. O resto é cenografia moral, dessas que se montam rápido quando o interesse é antigo e o apetite, voraz.
Bombardear um país soberano sem autorização do Conselho de Segurança da ONU tem nome técnico: agressão militar. No vocabulário do Direito Internacional, é violação explícita. No vocabulário trumpista, é pragmatismo. O caminho escolhido não foi o da legalidade, nem o da diplomacia — foi o da conveniência política imediata, essa que ignora povos e respeita apenas planilhas.
Sim, Nicolás Maduro governa de forma autoritária. Persegue opositores, frauda eleições, viola direitos humanos. Tudo isso é verdade. Mas verdades factuais não funcionam como salvo-conduto para invasões. Ditadores se enfrentam com tribunais, sanções multilaterais e pressão internacional — não com bombardeios unilaterais embalados como virtude.

Democracia não nasce de crateras. Nunca nasceu. E jamais nascerá de guerras ilegais travestidas de missão civilizatória. O que nasce daí é outra coisa: o aplauso entusiasmado do bobinho de direita — pobre de repertório e de bolso — que comemora uma operação que não entende, não alcança e, no fundo, jamais compreenderá.
Vale insistir num conceito simples: precedente.
Imagine um médico que comete erro grave numa cirurgia. Em vez de acionar o CRM, seguir o rito, o protocolo e o direito, alguém resolve “simplificar” e dá um tiro na cara do médico. Pronto: fim do manual, do devido processo e da civilização mínima. Não é um dilema sofisticado. O esforço intelectual exigido aqui é modesto.
Convém deixar claro: o problema não é Maduro. Maduro é apenas o que sempre foi — um lixo autoritário, um ditador sem verniz, desses que dispensam nota de rodapé. O problema é o precedente inaugurado com a desenvoltura de quem atravessa fora da faixa e ainda posa de prudente.
A partir daí, não vale mais a regra — vale a exceção transformada em método. Não se trata de opinião, gosto ou alinhamento ideológico. Trata-se da moldura que foi quebrada. O dano não está no episódio isolado, mas na naturalização do atalho.
Quando Trump decidir invadir a Groenlândia — ou qualquer outro território que a imaginação imperial alcance — qual será a desculpa? Alguma urgência moral improvisada, um inimigo mal recortado, um pretexto genérico embalado como defesa da ordem. Afinal, ele já deixou claro do que é capaz: não restaurar a ordem, mas instrumentalizar a desordem. Não por acidente — por estratégia. E por lucro.
Enquanto isso, assistimos à vibração mequetrefe em posts de Facebook, risadinhas de radialistas e análises feitas a partir de stories. O Brasil está na mira? Evidente. Amazônia, biodiversidade, recursos naturais, pré-sal, terras raras, nióbio. E anota aí onde a bola também vai pingar: no agronegócio.
O resto é torcida organizada chamando imperialismo de pragmatismo — e achando que isso é maturidade política.
E não se engane: não é só petróleo — é geopolítica, estúpido.
É a lógica bruta de eliminar zonas de influência, desmontar blocos de alinhamento com Rússia e China, reorganizar o tabuleiro à força, como quem varre peças indesejadas da mesa.
Voltando ao precedente: a Venezuela servida em bandeja de fast-food para Trump; meia Ucrânia entregue a Putin; Taiwan deixada à espera da China. Cada qual com seu quinhão, cada qual com sua narrativa moral de ocasião. O mundo repartido como combo promocional, sem sobremesa e sem direito de reclamação.
E, enquanto isso, Bolsonaro continua preso.
Talvez porque, nesse jogo de grandes apetites, ele nunca passou de um sanduíche frio: barulhento, descartável e irrelevante quando a conta chega.Mas não se esqueça: nunca, em toda a história da civilização, valentões como Trump se dão bem.
No máximo, dão certo por um tempo — até a conta chegar. E ela sempre chega, com juros, correção histórica e zero desconto para bravatas. O duro é escrever um texto para quem, até ontem, estava seriamente preocupado com o chinelo — e hoje se sente apto a opinar sobre geopolítica, economia e o destino da civilização ocidental.
E já que o assunto é chinelo, Trump deu de cara com Delcy Rodríguez.
Ela esperou dez anos por esse momento. Ele achou que encontraria mais um caudilho latino caricato. Encontrou uma mulher que governa: assina papéis, nomeia juízes, realinha o poder.
Enquanto Trump comemorava em público, Delcy reorganizava o tabuleiro em silêncio — e ganhou.
Derrubar um homem é bravata. Derrubar uma mulher, hoje, é pedir uma chinelada histórica. E Trump, ao que tudo indica, prefere ficar calçado. Delcy pode até negociar petróleo e abrir mercados, mas não se engane: – é nos termos dela!
*Raphael Anselmo é economista.
**Gustavo Girotto é jornalista.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



