“ A saudade é a prova de que o amor ainda vive em nós”. (Machado de Assis)
Por: Sérgio Sant’Anna*
A morte não leva tudo. Leva o corpo, é verdade, silencia a voz e interrompe gestos cotidianos, mas deixa para trás uma presença curiosa, insistente, quase teimosa: a saudade. Ela não pede licença para ficar. Simplesmente se instala nos cantos da casa, nos horários improváveis, nos objetos que perderam a função, mas ganharam memória.
Quem parte leva consigo o tempo que ainda poderia ser vivido, porém nos entrega, como herança silenciosa, lembranças que insistem em respirar. A saudade aparece no cheiro de um café que já não é servido por aquelas mãos, na antiga Olivetti que não é mais clicada, na música que toca ao acaso e, de repente, parece ter sido composta para alguém que não está mais ali. Surge também no meio da conversa, quando o nome quase escapa, e no impulso involuntário de contar algo a quem já não pode ouvir.
Há dias em que a saudade pesa. É um vazio cheio — paradoxal como tudo que envolve o amor. Não se trata apenas da ausência física, entretanto da falta de futuros possíveis: risos que não acontecerão, conselhos que não serão dados, encontros que ficaram suspensos no tempo. A saudade, nesses momentos, dói porque revela o quanto alguém foi essencial.
Ainda assim, ela também é prova de vínculo. Só sente saudade quem amou, quem foi atravessado por uma presença capaz de marcar a existência. Por isso, apesar da dor, a saudade carrega certa delicadeza: é a maneira que a memória encontra de manter vivos aqueles que a vida levou. Eles permanecem nos hábitos, nas palavras repetidas sem perceber, nas escolhas que fazemos influenciados por tudo o que fomos com eles.
No fim, aprender a conviver com a saudade é aceitar que algumas pessoas não se despedem completamente. Partem, porém ficam. Ficam no que somos, no que lembramos e, sobretudo, no amor que, mesmo sem corpo, insiste em não morrer.



