sábado, 18 abril, 2026

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Crônica: A saudade que fica

“ A saudade é a prova de que o amor ainda vive em nós”. (Machado de Assis)

Por: Sérgio Sant’Anna*

A morte não leva tudo. Leva o corpo, é verdade, silencia a voz e interrompe gestos cotidianos, mas deixa para trás uma presença curiosa, insistente, quase teimosa: a saudade. Ela não pede licença para ficar. Simplesmente se instala nos cantos da casa, nos horários improváveis, nos objetos que perderam a função, mas ganharam memória.

Quem parte leva consigo o tempo que ainda poderia ser vivido, porém nos entrega, como herança silenciosa, lembranças que insistem em respirar. A saudade aparece no cheiro de um café que já não é servido por aquelas mãos, na antiga Olivetti que não é mais clicada, na música que toca ao acaso e, de repente, parece ter sido composta para alguém que não está mais ali. Surge também no meio da conversa, quando o nome quase escapa, e no impulso involuntário de contar algo a quem já não pode ouvir.

Há dias em que a saudade pesa. É um vazio cheio — paradoxal como tudo que envolve o amor. Não se trata apenas da ausência física, entretanto da falta de futuros possíveis: risos que não acontecerão, conselhos que não serão dados, encontros que ficaram suspensos no tempo. A saudade, nesses momentos, dói porque revela o quanto alguém foi essencial.

Ainda assim, ela também é prova de vínculo. Só sente saudade quem amou, quem foi atravessado por uma presença capaz de marcar a existência. Por isso, apesar da dor, a saudade carrega certa delicadeza: é a maneira que a memória encontra de manter vivos aqueles que a vida levou. Eles permanecem nos hábitos, nas palavras repetidas sem perceber, nas escolhas que fazemos influenciados por tudo o que fomos com eles.

No fim, aprender a conviver com a saudade é aceitar que algumas pessoas não se despedem completamente. Partem, porém ficam. Ficam no que somos, no que lembramos e, sobretudo, no amor que, mesmo sem corpo, insiste em não morrer.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.