terça-feira, 21 abril, 2026

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Artigo: O dia em que a direita extremista encarou o próprio espelho

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

No Brasil imaginário que se desenrola diante de nós, a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e a atuação errática do governador Tarcísio de Freitas marcaram um daqueles momentos históricos em que políticos são forçados a encarar suas próprias contradições. E poucas imagens simbolizam tão bem esse choque quanto a tentativa desastrada — e politicamente calamitosa — de romper a tornozeleira eletrônica, agora transformada em um símbolo involuntário de hipocrisia nacional.

As cenas do episódio correram o mundo. Explicações estapafúrdias surgiram em sequência: falha técnica, desconforto físico, perseguição política, até a tentativa de culpar o dispositivo por falar com o presidiário. Nada que se assemelhe a uma defesa adulta e séria para o ato. Nada que resista ao mínimo teste de lógica. E, no entanto, seguidores e aliados apressaram-se em construir um castelo de justificativas tão frágeis quanto improváveis.

Tarcísio, por sua vez, protagonizou outro espetáculo constrangedor. Na ânsia de proteger seu padrinho político, entregou declarações desconexas, desmentidas pelo próprio andamento jurídico do caso. Sua postura, que deveria ser de estadista, converteu-se em mero palanque improvisado, tornando-se mais um capítulo da sua trajetória de equilibrista entre a institucionalidade e o radicalismo que o elegeu.

Mas a ironia maior, quase poética, está na súbita conversão de setores da extrema direita às causas humanitárias. Sim, aqueles mesmos que por anos repetiram chavões como “bandido bom é bandido morto” e “Direitos humanos, esterco da vagabundagem” agora clamam — em coro emocionado — pelos direitos humanos do ex-presidente. Direitos estes amplamente assegurados pelo próprio Estado Democrático de Direito que tantas vezes desprezaram e tentaram abolir.

É o tipo de ironia que a história raramente oferece com tamanha precisão.

Pagamos para ver. E hoje vemos generais da reserva, coronéis, sargentos, deputados e até governador empenhados em defender um condenado — não por altruísmo jurídico, mas por exploração política para conseguir o seu voto – o mesmo voto revoltado da época da Lava Jato. A cena expõe, com nitidez desconfortável, o duplo padrão moral que sempre permeou o discurso dessa ala: severidade extrema para o outro, garantismos generosos quando o réu veste as cores certas.

Este episódio fictício, mas verossímil em seu simbolismo, serve como alerta. Democracias não se fortalecem com frases de efeito, nem com fanatismos travestidos de patriotismo. Fortalecem-se encarando a realidade — inclusive quando ela expõe nossa própria incoerência.

Se há algo a aprender nesta narrativa imaginária, é que o Estado de Direito não escolhe lado.

E, no fim das contas, o único jeito de romper o lacre da tornozeleira da ignorância é a educação. Não aquela educação com cheiro de hierarquia, aclamada por escolas militares que confundem aprendizado com marcha ritmada e obediência coreografada. Mas a outra educação — a que dá trabalho. A que entrega ao aluno o inconveniente superpoder de duvidar, questionar e perceber que o mundo não se resume à ordem unida nem ao manual do comandante.

É por meio dessa educação insolente, que tolera perguntas e até incentiva pensamentos fora da caixinha (ou da caserna), que evitaremos produzir novos Jair Bolsonaros — na política, nas empresas, no condomínio e até na vida íntima, onde sempre aparece um aspirante a autoridade que se considera o xerife moral do ambiente.

Educação, afinal, é a vacina que imuniza contra o autoritarismo — ainda que alguns insistam em tomar placebos patrióticos no lugar de racionalidade.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.