Por: Sérgio Sant’Anna*
Há dias em que entrar em sala de aula parece repetir o gesto de Sísifo, condenado eternamente a empurrar a pedra montanha acima apenas para vê-la despencar novamente. O professor de Língua Portuguesa, armado de livros, poemas e regras de concordância, muitas vezes se vê diante do olhar vazio de quem já desistiu antes mesmo da primeira frase. Não é a ignorância que assusta; é o desinteresse. O não querer aprender tornou-se uma espécie de epidemia silenciosa nas escolas contemporâneas.
Recordo-me então de Paulo Freire, que dizia não existir ensino sem diálogo. Entretanto, o diálogo pressupõe escuta, e muitos estudantes atuais vivem aprisionados numa bolha ruidosa de vídeos rápidos, notificações incessantes e distrações instantâneas. O conhecimento, que exige demora e contemplação, perdeu espaço para a ansiedade do imediatismo. Ler um conto de Machado de Assis parece-lhes uma travessia impossível, como se cada página fosse um quilômetro de deserto.
Em certos momentos, sinto-me como o personagem de “O Ateneu”, de Raul Pompeia, tentando sobreviver às chamas simbólicas de um sistema que lentamente consome a curiosidade humana. Há alunos que entram em sala apenas fisicamente; suas mentes vagueiam pelo universo luminoso das telas. O professor fala sobre metáfora, sujeito oculto, intertextualidade, mas compete contra algoritmos construídos para capturar atenção em poucos segundos. E a literatura, coitada, não grita — ela sussurra. Lembro então da célebre pintura “O Grito”, de Edvard Munch. Às vezes, o professor contemporâneo parece a figura da obra: mãos no rosto, cercado por um mundo que faz barulho demais e escuta de menos. O grito não é apenas de desespero; é também o eco da impotência diante de uma geração que muitas vezes desaprendeu a contemplar o silêncio necessário ao pensamento.
O filósofo Byung-Chul Han afirma que vivemos na sociedade do cansaço. Talvez nossos alunos estejam cansados antes mesmo de começar. Cansados de estímulos excessivos, de informações fragmentadas, de uma vida digital que nunca desacelera. Ensinar gramática ou produção textual nesse contexto torna-se quase um ato de resistência cultural. O quadro e o giz parecem armas medievais numa guerra tecnológica.
E, no entanto, há beleza em persistir. Quando explico um poema de Carlos Drummond de Andrade ou apresento uma crônica de Rubem Braga, ainda acredito que alguma palavra pode atravessar o muro da indiferença. Afinal, a literatura sempre foi uma tentativa de salvar o humano do embrutecimento. Mesmo um único aluno atento já justifica a aula inteira. Às vezes, enquanto os estudantes ignoram uma explicação sobre figuras de linguagem, lembro-me dos versos de Cazuza: “Meus heróis morreram de overdose”. Talvez os heróis atuais tenham morrido de excesso de superficialidade. O culto ao efêmero roubou dos jovens a paciência de aprofundar ideias. Muitos já não interpretam textos; apenas decodificam palavras apressadamente, como quem desliza o dedo numa tela infinita.
Também penso em Friedrich Nietzsche, quando escreveu que “aquele que tem um porquê enfrenta qualquer como”. O problema de muitos estudantes não está na incapacidade intelectual, mas na ausência de sentido. Aprender tornou-se obrigação burocrática, não descoberta. Decoram conteúdos para provas, mas raramente compreendem a dimensão libertadora do conhecimento. Falta-lhes o “porquê”.
Ainda assim, o professor continua. Corrige redações de madrugada, planeja aulas aos domingos, busca filmes, músicas e referências culturais para despertar algum brilho nos olhos da turma. Há algo de quixotesco nisso. Como Dom Quixote enfrentando moinhos, o educador insiste em combater gigantes invisíveis: o desinteresse, a preguiça intelectual e a banalização da linguagem.
Em certos dias, uma música salva a aula. Um trecho de “Apesar de Você”, de Chico Buarque, ou uma canção de Belchior, consegue abrir pequenas frestas de atenção. A arte ainda possui esse milagre raro: tocar onde os discursos comuns não alcançam. Talvez ensinar seja exatamente isso — insistir em abrir frestas.
No fim das contas, ensinar quem não deseja aprender é um exercício diário de esperança teimosa. O professor de Português sabe que palavras podem fracassar, mas sabe também que, às vezes, uma única frase permanece na memória de um aluno por toda a vida. E talvez seja por isso que seguimos entrando em sala de aula: porque, apesar do cansaço, ainda acreditamos secretamente que a educação pode salvar alguém do vazio.


