Por: Gabriel Bagliotti*
Existem dias que entram para a história de uma cidade. E existem dias que, antes mesmo de entendermos a dimensão do que aconteceu, já ficam marcados para sempre na memória de quem os viveu. Para mim, a madrugada de sexta-feira, 24 de julho, foi exatamente assim.
Confesso que poucas vezes senti medo durante uma tempestade. Eram aproximadamente 4h20 da manhã quando acordei com um barulho diferente. Não era apenas chuva. Era o vento. Um vento forte, contínuo, que parecia assoviar por todas as frestas da casa. Levantei imediatamente e acordei a Nathalia. Bastou alguns segundos para percebermos que aquela não seria uma madrugada comum.
Em questão de um minuto, a chuva chegou com uma intensidade impressionante. Corri para abrir a porta e chamar a Teca, nossa pastora alemã, para que ela pudesse entrar em segurança. Dali em diante, tudo aconteceu muito rápido.
A água começou a invadir praticamente todos os cômodos da nossa casa. Nosso filho Joaquim acordou assustado com o barulho do vento e da chuva. Como qualquer criança faria, procurou abrigo debaixo das cobertas da nossa cama, buscando proteção em meio ao desconhecido. Aquela cena jamais sairá da minha memória. Como pai, meu primeiro pensamento foi garantir que ele estivesse seguro.
Ainda antes das cinco horas da manhã, em completa escuridão por causa da falta de energia, Nathalia e eu já estávamos empurrando móveis, secando a água que entrava na residência e tentando minimizar qualquer tipo de prejuízos. Ao mesmo tempo, como jornalistas que somos, acompanhávamos pelo celular as primeiras informações que começavam a surgir.
Naquele momento, eu imaginava que muitas pessoas estariam passando por dificuldades semelhantes. Mas nunca pensei que Taquaritinga enfrentaria uma situação de tamanha proporção.
Com o amanhecer, vieram as imagens que todos nós vimos. Árvores arrancadas pela força do vento, imóveis danificados, prédios públicos atingidos, bairros inteiros sofrendo com o destelhamento de uma escola, famílias desalojadas e uma cidade inteira tentando entender o que havia acontecido em poucas horas.
Desde então, uma pergunta não saiu da minha cabeça: se na minha casa, onde conseguimos controlar a situação, já foi desesperador, como deve ter sido para quem perdeu praticamente tudo?
Penso especialmente nas famílias que vivem nas proximidades da EMEB Dr. Estevam Schlobach Salvagni, e em tantos outros bairros que sofreram diretamente com a tempestade. Pessoas que viram móveis, roupas, alimentos e objetos construídos ao longo de uma vida serem destruídos pela força da natureza. São histórias que muitas vezes não aparecem completamente nas fotografias ou nas reportagens, mas que deixam marcas profundas em quem as vive.
Ao mesmo tempo, essa tragédia revelou algo que sempre me encheu de orgulho em relação à nossa cidade: a solidariedade do povo taquaritinguense. Em poucos dias, vimos campanhas de arrecadação, voluntários ajudando na limpeza, empresários colaborando, servidores públicos trabalhando sem medir esforços e moradores estendendo a mão para quem precisava.
Infelizmente, não podemos controlar a força da natureza. Tempestades continuarão acontecendo. Mas podemos controlar a forma como reagimos diante delas. E Taquaritinga mostrou que, nos momentos mais difíceis, sabe se unir.
Tenho certeza de que o dia 24 de julho ficará registrado na história do município. Não apenas pelos estragos que causou, mas também pela demonstração de coragem, união e solidariedade de uma população que, mesmo diante das adversidades, encontrou forças para recomeçar.
Que essa experiência também nos faça refletir sobre a importância da prevenção, do planejamento urbano e da preservação ambiental. Porque reconstruir o que foi perdido é necessário. Mas aprender com o que aconteceu é indispensável.



