Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Há, no Brasil, uma nova modalidade de honestidade intelectual: aquela que funciona por encomenda. Ela aparece sempre que Alexandre de Moraes entra em cena.
Nesse momento, parte considerável do debate público saca a régua, o esquadro, a Constituição, os tratados internacionais, as notas de rodapé e, se necessário, até a Bíblia. Tudo precisa ser medido. Tudo precisa ser questionado. Cada decisão merece uma perícia moral.
É legítimo. Aliás, é necessário. O problema começa quando a mesma régua desaparece misteriosamente da gaveta.
Não se pode empurrar Xandão para o abismo — político, institucional ou moral — sem admitir que o princípio da coerência exige olhar com igual atenção para André Mendonça. Não existe compromisso seletivo com a independência dos Poderes. Não existe honestidade relativa. Ou a régua serve para todos ou não serve para ninguém.
O Brasil se acostumou a discutir personagens como quem escolhe time de futebol. Antes de examinar o fato, pergunta-se de que lado está o protagonista. Depois, monta-se a tese. Se é aliado, chama-se prudência.
Se é adversário, de abuso. Se é do nosso campo, é interpretação constitucional. Do outro, é ativismo judicial.
É um método bastante eficiente para ganhar discussões em redes sociais e absolutamente inútil para construir instituições minimamente respeitáveis.
A imprensa, que gosta de se apresentar como a última adulta na sala, deveria prestar atenção no que aconteceu com a República de Curitiba. Durante anos, Sérgio Moro e Deltan Dallagnol foram tratados por parte relevante do debate público como personagens acima das fragilidades humanas. Eram a encarnação da moralidade. A dúvida era quase uma heresia.
Depois, descobriu-se algo bastante brasileiro: os heróis também têm projeto de carreira. E, em alguns casos, um projeto eleitoral.
Moro foi para a política. Dallagnol foi para a política. A cruzada contra o sistema revelou, no fim, um curioso interesse em ocupar uma cadeira dentro dele.
Não há nada ilegal em disputar eleições. O problema é outro. O problema é passar anos vendendo a ideia de que se está acima da política, contra a política, purificando a política — para, na primeira oportunidade, descobrir que o destino natural da missão era uma candidatura. A Lava Jato, ou pelo menos sua fração transformada em partido informal de extrema direita, deixou uma lição que a imprensa deveria guardar numa moldura: desconfie especialmente de quem afirma não ter interesses.
Todo mundo tem interesses. O juiz tem, o procurador, político, empresário e jornalista também. O ministro do Supremo também.
A diferença entre uma democracia adulta e uma torcida organizada é justamente a capacidade de reconhecer isso sem transformar cada personagem em santo ou demônio conforme a conveniência da semana.
Alexandre de Moraes pode — e deve — ser criticado. André Mendonça também. Nenhum deles precisa ser protegido da crítica. Nenhum deles deveria ser condenado por uma imprensa que decidiu, antes de olhar os fatos, qual dos dois personagens ocupará o papel de vilão naquela temporada. O Brasil não precisa de uma imprensa que escolha seus monstros.
Precisa de uma imprensa que escolha critérios. Porque a honestidade que só funciona contra o adversário não é honestidade. É militância com pretensão estética. E a régua que muda de tamanho conforme o nome do medido não é uma régua. É um cabo de vassoura.
E André Mendonça também precisa entrar nessa conta. Se Alexandre de Moraes é cobrado por suas mensagens, relações e decisões, Mendonça não pode receber um salvo-conduto moral. Afinal, é legítimo perguntar se um ministro indicado por Jair Bolsonaro consegue manter absoluta distância política do grupo que o levou ao Supremo — especialmente quando suas decisões podem ter impacto direto no futuro eleitoral do bolsonarismo e de nomes como Flávio Bolsonaro. Gratidão é um sentimento humano; independência é uma obrigação institucional. E a imprensa não pode fingir que só desconfia de vínculos políticos quando eles envolvem o ministro de quem não gosta.
Flávio Dino, por fim, fez hoje uma jogada muito mais sofisticada do que simplesmente defender Alexandre de Moraes. Deu uma aula de estratégia: ampliou o tabuleiro.
Em vez de aceitar que o julgamento se transformasse exclusivamente em um acerto de contas em torno de Moraes, Dino trouxe André Mendonça para o centro da discussão e colocou uma questão que vai muito além dos dois ministros: qual é a régua que o Supremo deve usar quando há suspeitas envolvendo seus próprios integrantes?
Sua linha foi objetiva: se há situações duvidosas, que sejam investigadas; mas que sejam investigadas com isonomia, com rito e com o mesmo critério. Foi justamente nesse ponto que Dino criticou o que chamou de “dois pesos e duas medidas”.
É uma postura que merece atenção porque não se limita a escolher um lado da briga. Dino tentou mudar a natureza da discussão. Tirou o julgamento do terreno da torcida e levou para o terreno do método, do rito e da coerência institucional.
Talvez essa seja a grande diferença: enquanto alguns disputam personagens, Dino parece preferir disputar o tabuleiro.
Precisamos de uma geração que estude para ser Flávio Dino. Porque, de André Mendonça e Alexandre de Moraes, convenhamos, o mundo já está de saco cheio.




