sábado, 19 setembro, 2026
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Arte em Foco – Retrato sem Modelo

Por: Larissa Cabreira*

Toda vez que tento desenhá-lo de memória, alguma coisa escapa. Não é o rosto inteiro que falha, é sempre um detalhe específico: a curva exata da sobrancelha, o jeito como a boca se acomodava antes de uma frase engraçada, a proporção entre o nariz e as maçãs do rosto que eu sei que existia, mas que minha mão nunca consegue confirmar no papel. Faço o traço, apago, refaço, e o resultado é sempre um parente distante de quem eu queria retratar. 

Nunca ele. 

Uma sombra generosa dele.

Existe um termo técnico, meio frio para o que descreve, chamado “retrato de memória”: a tentativa de reconstruir visualmente um rosto sem ter o modelo à frente, contando apenas com o que ficou guardado. Peritos criminais usam a técnica para reconstituir suspeitos a partir de testemunhas… eu uso para tentar não deixar meu pai se apagar de vez.

O curioso é que essa imprecisão, que a princípio parece um fracasso da memória, talvez seja a parte mais honesta do processo. Um retrato técnico perfeito, tirado de uma foto nítida, não exigiria nada de mim além de habilidade manual. Mas o retrato de memória exige outra coisa: exige que eu vasculhe, escolha, decida o que guardar e o que deixar ir. Cada traço é uma pequena negociação entre o que foi real e o que meu afeto insiste em preservar como real. E talvez seja assim, e só assim, que a gente realmente retrata alguém que já partiu. Não como documento. Como declaração.

Faltam poucos dias para o dia 20 de setembro, data em que ele completaria quarenta e oito anos, uma idade que ele nunca vai carregar, mas que eu carrego por ele, silenciosamente, todos os anos. E em novembro se completa uma década inteira desde que ele se foi. Dez anos é tempo suficiente para que um rosto comece a desbotar na lembrança, mas insuficiente, felizmente, para apagar aquilo que realmente importa: o jeito de olhar o mundo que ele me deixou como herança, e que, sem querer, virou o fio condutor de tudo que escrevo aqui, semana após semana, nesta coluna que já é, ela mesma, um retrato dele sendo refeito toda vez que eu escolho, de novo, prestar atenção.

Talvez eu nunca acerte a curva exata da sobrancelha. Mas acho que ele entenderia. No fim, todo retrato de memória é menos sobre semelhança e mais sobre insistência. E eu, essa eu prometo, não vou parar de tentar.

Há um consolo estranho nisso tudo, o de perceber que ninguém, na verdade, escapa dessa condição. Toda arte que tenta capturar alguém que já não está mais aqui, seja um retrato, uma biografia, uma canção escrita em homenagem, carrega essa mesma imperfeição essencial. Os grandes mestres da pintura também erravam proporções ao retratar de memória figuras já falecidas, e ninguém hoje olha para essas obras pensando no erro técnico. Olha para a intenção. Para o gesto de quem se recusou a deixar aquele rosto desaparecer por completo, mesmo sabendo, desde o primeiro traço, que a versão final jamais seria perfeita.

Talvez seja por isso que eu continue voltando a esse exercício, ano após ano, sem nunca me sentir satisfeita com o resultado. Não é sobre acertar. É sobre o ritual de tentar. E, se um dia alguém me perguntar por que ainda desenho um homem que só existe hoje em fragmentos de memória, a resposta é simples: porque desistir de tentar seria a única forma real de perdê-lo.

*Larissa Cabreira é colaboradora d’O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.