Daquelas que parecem exagero, mas que só poderiam ter acontecido com figuras como João.
Por: Gustavo Girotto*
A primeira foi o famoso embate com o Jair Motuca, depois de uma coluna que eu escrevi. Mas, como sempre, sobrou um pouco para o João pagar a conta. Eu era “foca” (na visão generosa do radialista), então, na cabeça dele, aquele texto só poderia ter sido obra do Jones. O resultado? Uma goleada histórica. Daquelas em que o adversário entra achando que vai jogar uma pelada e sai procurando a bola até hoje. Vencemos!
A segunda aconteceu em um domingo qualquer, cenário perfeito para essas pérolas. O saudoso Tonho Mariano chegou e soltou:
— João, me vê meia dúzia de qualquer uma. Está tudo fechado.
Jones, com a tranquilidade de quem sempre tinha uma solução alternativa, respondeu:
— Mariano, só tenho chope.
Mariano foi embora. Ou melhor, parecia que tinha ido.
Alguns minutos depois, eis que ele desce trazendo uma panela de pressão e uma concha de sopa na mão.
Jones, curioso:
— Mariano, pra que isso?
E ele, com a lógica mais irrefutável do mundo:
— Uai, Jones. Enche a panela de pressão. São cinco litros de chope e o assunto está resolvido.
Silêncio.
Jones olha, pensa por alguns segundos e decreta:
— Então está resolvido!
Era assim. Em Taquaritinga, o saudoso Mariano improvisou o chopp com concha de sopa e, o João, aderiu (risos)…
Ao mestre João Perroni, com carinho
Gustavo Girotto, jornalista…
Hoje, na Flórida, meu telefone tocou trazendo uma notícia triste. Partiu João Perrone, um dos grandes mestres que tive no jornalismo e na vida.
João foi muito mais do que brilhante. Quando criamos o Fique Por Dentro, ele teve papel fundamental na construção da nossa linha editorial, ajudando a dar identidade, personalidade e propósito ao projeto. Sua visão aguçada, seu senso crítico e sua sensibilidade cultural deixam marcas profundas em todos que tiveram o privilégio de conviver ao seu lado.
Era um boêmio no sentido mais nobre da palavra. Compositor talentoso, desenhista inspirador, observador atento da vida e das pessoas. Jones transitava entre a arte, a cultura e a comunicação com uma naturalidade rara.
À frente da Chopperiferia e do Serenô, em São Paulo, ajudou a moldar o pensamento cultural de uma geração. Era uma das mentes mais criativas e inquietas que conheci. Também foi o cérebro por trás das boas ironias e reflexões da inesquecível Batata Doce, sempre provocando sorrisos, questionamentos e conversas inteligentes.
Mas, acima de tudo, João foi um grande amigo. Daqueles que deixam ensinamentos que permanecem para sempre. Sua generosidade intelectual, seu humor refinado e sua capacidade de enxergar o mundo por ângulos diferentes fizeram dele uma figura única.
Para os padrões de Taquaritinga, João carregava aquele indispensável toque de loucura dos grandes criativos. Mas por trás do espírito inquieto havia uma inteligência rara, refinada por uma ironia elegante e afiada, daquelas que poucos compreendiam por inteiro. Conviver com ele, aprender com ele e chamá-lo de amigo foi um privilégio reservado a poucos — e uma honra que levarei comigo para sempre.
E Taquaritinga perde muito com sua partida. Aliás, perde um pouco de si a cada vez que um representante dessa geração nos deixa. São vozes, ideias, histórias e irreverências que não se repetem. A cidade vai ficando mais silenciosa, mais previsível e, inevitavelmente, mais entediante.
Descanse em paz, mestre Jones. Sua presença fará falta, mas sua história continuará inspirando muitos de nós. Com carinho e eterna gratidão.
*Gustavo Girotto é jornalista.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.



