Quando a máquina escreve, quem ainda pensa?
Por: Sérgio Sant’Anna*
Se há um tema que precisa urgentemente entrar nas salas de aula, nas rodas de conversa e, sobretudo, nas propostas de Redação do ENEM, esse tema é a Inteligência Artificial. Como professor de Língua Portuguesa e Redação, observo com entusiasmo as possibilidades oferecidas por essa tecnologia, mas também com enorme preocupação o momento em que ela deixa de ser ferramenta e passa a funcionar como substituta da inteligência humana. Afinal, se uma máquina escreve por mim, lê por mim, resume por mim, argumenta por mim e até pensa por mim, o que exatamente ainda estou aprendendo? Essa pergunta, a meu ver, deveria estar no centro do debate educacional brasileiro.
Não sou contra a Inteligência Artificial. Seria, inclusive, contraditório defender uma educação voltada para o século XXI ignorando uma das tecnologias mais transformadoras do nosso tempo. O próprio Ministério da Educação já reconhece que a IA chegou ao universo educacional e publicou referenciais para orientar seu uso responsável. O problema começa quando confundimos facilidade com aprendizagem. Uma ferramenta que pode explicar um conteúdo, sugerir caminhos, comparar argumentos ou auxiliar uma pesquisa pode ser extraordinária; porém, quando passa a produzir integralmente aquilo que o estudante deveria construir, ela transforma a aprendizagem em mera terceirização cognitiva.
Os números mostram que não estamos diante de uma possibilidade distante. Segundo a pesquisa TIC Educação 2024, divulgada pelo Cetic.br, 70% dos estudantes brasileiros do Ensino Médio usuários de Internet já recorrem a ferramentas de IA generativa em suas pesquisas escolares. Entretanto, apenas 32% afirmaram ter recebido orientação da escola sobre como utilizar essas tecnologias. Eis o paradoxo: os estudantes já estão usando a inteligência artificial, mas a escola ainda está aprendendo a ensiná-los a utilizá-la. Proibir pura e simplesmente talvez não seja suficiente; permitir indiscriminadamente, muito menos.
É nesse ponto que compreendo as preocupações do Conselho Nacional de Educação. A Resolução CNE/CEB nº 2/2025 estabeleceu diretrizes nacionais para o uso de dispositivos digitais nos espaços escolares e para a integração curricular da educação digital e midiática. Além disso, em 2026, o próprio CNE promoveu consulta pública específica sobre Inteligência Artificial na Educação, sinal de que o país ainda está construindo parâmetros mais precisos para essa realidade. Para mim, a mensagem é clara: a escola não pode transformar o ambiente pedagógico em território sem regras, onde qualquer tecnologia seja utilizada sem critérios de idade, finalidade, privacidade, autoria, ética ou aprendizagem.
A preocupação não é exclusivamente brasileira. A UNESCO recomenda cautela, regulamentação, proteção de dados e formação docente para o uso da IA generativa na educação e estabelece, em suas orientações, a referência de 13 anos como idade mínima para o uso de ferramentas de IA em sala de aula. Portanto, estabelecer limites não significa ser inimigo da tecnologia. Ao contrário: significa reconhecer que crianças e adolescentes ainda estão construindo autonomia intelectual e precisam aprender a utilizar as ferramentas digitais sem permitir que elas ocupem o lugar da própria consciência.
Penso frequentemente em Paulo Freire quando observo esse fenômeno. Em Pedagogia da Autonomia, o educador defende uma educação que estimule a capacidade de pensar, questionar e produzir conhecimento. Para mim, essa concepção permanece absolutamente atual diante da IA. Educar não é entregar respostas prontas; é ensinar alguém a formular perguntas, desconfiar das respostas, estabelecer relações e construir argumentos. Se o estudante simplesmente digita um comando e entrega o texto produzido pela máquina, talvez tenha produzido uma redação, mas não necessariamente tenha produzido aprendizagem.
E aqui chegamos ao coração da questão: a Redação do ENEM. Escrever uma dissertação argumentativa não deveria ser compreendido como um exercício mecânico de preencher introdução, dois desenvolvimentos e conclusão. Escrever é organizar o pensamento. É escolher palavras. É estabelecer relações entre causas e consequências. É interpretar o mundo e posicionar-se diante dele. Quando um estudante pede à IA que escolha a tese, desenvolva os argumentos, selecione o repertório sociocultural e redija a conclusão, ele pode até obter um texto linguisticamente organizado, mas perde justamente aquilo que a redação deveria revelar: sua capacidade de pensar criticamente.
O filósofo René Descartes escreveu a célebre máxima “Penso, logo existo”. Séculos depois, a Inteligência Artificial nos obriga a formular uma espécie de antítese contemporânea: “Se a máquina pensa por mim, ainda estou pensando?” Evidentemente, uma IA não pensa como um ser humano; ela processa dados, identifica padrões e produz respostas a partir de modelos computacionais. Ainda assim, o perigo pedagógico existe: podemos criar uma geração que saiba solicitar respostas às máquinas, mas que tenha dificuldade para construir as próprias perguntas. E uma sociedade incapaz de perguntar é uma sociedade perigosamente vulnerável à manipulação.
Talvez por isso a literatura continue sendo tão necessária. Em Fahrenheit 451, Ray Bradbury imaginou uma sociedade na qual os livros são perseguidos e o pensamento crítico é sufocado por uma cultura dominada pela velocidade, pelo entretenimento e pela superficialidade. Não vivemos exatamente aquele futuro, mas a advertência permanece poderosa. Quando substituímos a leitura por resumos automáticos, a escrita por textos gerados e a reflexão por respostas instantâneas, corremos o risco de construir uma espécie de analfabetismo sofisticado: pessoas capazes de acessar milhões de informações, mas incapazes de interpretar profundamente uma delas.
Também me recordo de Hannah Arendt e de sua reflexão sobre a importância do pensamento e do julgamento. Em uma época marcada por algoritmos capazes de selecionar aquilo que vemos, ouvimos e lemos, pensar tornou-se ainda mais necessário. A inteligência artificial pode oferecer milhares de possibilidades, mas não pode assumir a responsabilidade ética pelas escolhas humanas. Uma máquina pode produzir um argumento sobre desigualdade social; não pode, por nós, experimentar a indignação diante da desigualdade. Pode escrever sobre saudade; não sente saudade. Pode produzir um poema sobre a morte; não conhece a finitude.
A música brasileira, aliás, sempre nos lembrou que pensar também é sentir. Quando Belchior canta “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”, em Como Nossos Pais, encontro uma provocação que cabe perfeitamente neste debate: não podemos permitir que uma tecnologia nova reproduza velhos hábitos humanos, como a preguiça intelectual, a dependência e a incapacidade de questionar. Da mesma forma, quando Gonzaguinha pergunta, em O Que É, O Que É?, “E a vida? E a vida o que é?”, há uma pergunta essencial que nenhuma inteligência artificial deveria eliminar: a pergunta humana sobre o próprio sentido de existir.
Por isso, defendo uma escola que não demonize a IA, mas que também não se ajoelhe diante dela. Quero que meus alunos aprendam a utilizar essas ferramentas para pesquisar, comparar, revisar, levantar hipóteses, identificar erros e ampliar repertórios, mas quero, sobretudo, que saibam desligá-las quando chegar a hora de pensar sozinhos. O professor precisa continuar sendo mediador; o estudante precisa continuar sendo autor. E a avaliação precisa ser repensada para valorizar processos, versões, debates, oralidade, manuscritos, projetos e a capacidade de explicar aquilo que foi produzido. A tecnologia pode participar da aprendizagem; ela não pode ser confundida com a própria aprendizagem.
No fim das contas, acredito que a grande pergunta que o ENEM poderia nos ensinar a fazer sobre a Inteligência Artificial não é simplesmente “a favor ou contra?”, mas “a serviço de quem e de quê colocaremos essa tecnologia?” Como professor de Redação, defendo que discutir IA é discutir o próprio futuro da leitura, da escrita, da escola e da democracia. Precisamos formar jovens que saibam conversar com máquinas sem se transformar em máquinas; que utilizem algoritmos sem entregar a eles a própria consciência; que aceitem a velocidade tecnológica sem abandonar a profundidade humana. Afinal, se a inteligência artificial pode escrever por nós, talvez a nossa maior tarefa seja garantir que ninguém permita que ela pense por nós.




