sábado, 26 setembro, 2026
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Artigo: A Amazônia voltará a ser o jardim do quintal?

Por que alguns brasileiros parecem tão dispostos a defender os interesses dos outros?

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

A eleição brasileira ainda nem chegou, mas o palco internacional já está montado. A cada dia aparece uma nova declaração, uma nova provocação, uma nova tentativa de influenciar o debate brasileiro. Donald Trump volta suas atenções para o Brasil. Elon Musk comemora pesquisas que lhe interessam. E, enquanto as câmeras registram o espetáculo, fica a inevitável pergunta: o que acontece longe dos holofotes?

Não é preciso acreditar em teorias conspiratórias para entender que grandes potências defendem seus próprios interesses. Aliás, basta conhecer um pouco de história. Milton Friedman popularizou uma frase que atravessou décadas: “There is no such thing as a free lunch”. Não existe almoço grátis. Na política internacional, isso deveria ser quase uma regra de alfabetização.Quando uma potência se movimenta, há interesses envolvidos. Quando oferece ajuda, há interesses envolvidos. Quando pressiona, há interesses envolvidos. Quando elogia, também. E não há nada particularmente misterioso nisso. Estados Unidos defendem os interesses americanos. China defende os interesses chineses. Rússia defende os interesses russos. A pergunta que deveria ocupar a cabeça de qualquer brasileiro minimamente preocupado com o país é: e quem está defendendo os interesses brasileiros?

É nesse ponto que o espetáculo fica grotesco.

Temos brasileiros enrolados na bandeira nacional dispostos a defender, com uma fidelidade quase religiosa, posições que vêm de fora. Gritam “Brasil acima de tudo”, mas parecem dispostos a colocar quase tudo acima do Brasil.

É patriotismo ou terceirização da soberania? A bandeira brasileira virou, para alguns, uma espécie de uniforme. Basta vesti-la para que qualquer posição passe automaticamente a ser considerada patriótica. Não importa de onde veio a ordem, quem está se beneficiando ou qual é o preço para o país.

Questionar o líder? Jamais. Questionar o aliado estrangeiro? Menos ainda. Questionar a própria crença? Aí já seria exigir demais. O resultado é uma curiosa espécie de patriotismo em que o patriota passa mais tempo defendendo interesses estrangeiros do que discutindo os interesses do próprio país. É quase como se a soberania nacional tivesse sido terceirizada — com contrato de exclusividade e sem direito a auditoria.

Washington não acorda pensando em salvar o Brasil. Pequim não acorda pensando em salvar o Brasil. Moscou não acorda pensando em salvar o Brasil. E Brasília deveria parar de agir como se algum deles fosse acordar.

Isso não significa transformar relações internacionais em guerra. Não significa fechar portas, romper acordos ou enxergar uma conspiração em cada diplomata estrangeiro. Significa apenas entender uma regra elementar do mundo real: países não têm amigos eternos; têm interesses permanentes. Mas Trump… bom, vocês sabem. E o Brasil precisa aprender a ter os seus. A atual disputa geopolítica torna tudo ainda mais delicado. Estados Unidos, China e Rússia disputam espaço, mercados, influência e recursos estratégicos. O Brasil ocupa uma posição importante nesse tabuleiro, inclusive por sua participação nos BRICS e pelo peso de seus recursos naturais. Não somos uma quitanda abandonada na esquina do mundo. Temos território continental, alimentos, energia, água, biodiversidade, petróleo, minerais estratégicos e uma posição geográfica que desperta interesse. E, ainda assim, há quem pareça acreditar que basta um político estrangeiro elogiar determinado grupo brasileiro para que devamos comemorar. Comemorar o quê? A simpatia?

Ou o fato de que alguém lá fora descobriu uma maneira conveniente de influenciar o debate aqui dentro? É preciso separar fato de especulação, evidentemente. Nem toda declaração estrangeira é uma operação secreta. Nem toda pesquisa comemorada nas redes sociais é resultado de manipulação. Nem toda movimentação diplomática esconde uma conspiração. Mas também seria infantil acreditar que não existem tentativas de influência política, econômica e estratégica. A política internacional não funciona como uma reunião de condomínio. Funciona como uma disputa permanente por poder, mercados e recursos.

E o eleitor brasileiro deveria estar menos preocupado em saber qual estrangeiro torce pelo seu candidato e muito mais preocupado em descobrir o que esse estrangeiro espera ganhar com isso. Porque, no final das contas, a pergunta é simples. Se alguém está oferecendo o almoço, quem vai lavar a louça? E se a conta vier acompanhada da Amazônia, dos nossos recursos minerais, da nossa indústria, da nossa soberania ou da nossa capacidade de decidir o próprio futuro?

Exemplo? Trump já oficializou que a companhia aérea brasileira deve comprar aviões da Boeing. E a Embraer, o orgulho nacional de desenvolvimento tecnológico? Vamos deixá-la de lado porque Trump pediu? Enquanto Lula lançou programa para de benefícios para empresas brasileiras adquirem aviões nacionais, Trump, que por óbvio pensa em seu país, quer sabotá-lo. Mas os patriotas não parecem se importar.

Talvez seja hora de parar de confundir patriotismo com obediência. Porque o maior perigo para um país não é necessariamente a potência estrangeira que quer alguma coisa dele. É o cidadão que entrega e ainda chama a entrega de patriotismo.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.