terça-feira, 29 setembro, 2026
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Crônica: Aposta-se tudo, até a própria redação

E se as Bets virarem tema do ENEM?

Por: Sérgio Sant’Anna*

Se eu estivesse diante de uma turma de terceiro ano do Ensino Médio e dissesse: “Preparem-se, porque as bets podem aparecer como tema da redação do ENEM”, provavelmente alguns alunos imediatamente pensariam nas próprias experiências com aplicativos de apostas, enquanto outros se perguntariam: “Professor, mas o que eu escreveria sobre isso?”. É justamente aí que começa o trabalho de um bom redator: transformar um assunto cotidiano em um problema social, analisá-lo criticamente e construir uma argumentação que ultrapasse o senso comum. Como professor de Redação, eu diria aos meus alunos que o tema das apostas esportivas não deve ser tratado simplesmente como “jogar é errado”, mas como uma questão relacionada à economia, à publicidade, à saúde financeira, à vulnerabilidade social, à tecnologia, ao comportamento e à responsabilidade do Estado e das empresas.

Antes de qualquer coisa, eu ensinaria o vestibulando a compreender o tema. Se uma proposta hipotética fosse “Os impactos sociais da expansão das apostas on-line no Brasil”, não bastaria escrever que “as bets fazem mal”. Seria necessário responder: quais impactos? Para quem? Por que eles acontecem? Quais fatores permitem sua expansão? Quem deve enfrentá-los? Essa capacidade de delimitação é fundamental para a Competência II do ENEM. Um dos erros mais comuns é transformar o texto em um desabafo moralista. Redação não é sermão. Redação é argumentação. O candidato precisa apresentar uma tese, desenvolver causas e consequências e construir uma proposta de intervenção relacionada aos problemas discutidos.

Para começar a construir um repertório sociocultural consistente, eu poderia recorrer ao filósofo Aristóteles, especialmente à reflexão sobre o hábito e a formação das condutas humanas. Sem forçar uma relação inexistente com as apostas contemporâneas, o estudante poderia utilizar a ideia aristotélica de que os hábitos participam da formação das ações humanas para discutir como a repetição de comportamentos pode transformar uma prática ocasional em comportamento recorrente. O importante, entretanto, seria explicar a referência. Eu sempre digo aos meus alunos: repertório não é enfeite; repertório é ferramenta argumentativa. Citar Aristóteles e não explicar a relação com o problema vale muito menos do que utilizar uma referência aparentemente simples, mas devidamente articulada.

Outro caminho extremamente produtivo seria recorrer ao sociólogo Zygmunt Bauman e à ideia de uma sociedade marcada pelo consumo, pela velocidade e pela fragilidade dos vínculos. As plataformas digitais transformaram inúmeros comportamentos em experiências instantâneas: comprar, vender, assistir, conversar e, agora, apostar. O estudante poderia argumentar que a lógica da gratificação imediata encontra nas plataformas de apostas um ambiente particularmente favorável. Entretanto, atenção: não se deve escrever que “Bauman afirmou que as bets são responsáveis pelo vício”, porque isso seria atribuir ao sociólogo uma afirmação que ele não fez. O repertório precisa ser legítimo, pertinente e produtivo.

Eu também recomendaria aos candidatos o filme Corrida dos Bichos, produção cinematográfica brasileira que apresenta uma competição envolvendo animais e uma dinâmica de apostas, podendo ser explorada como representação ficcional da transformação do entretenimento em espetáculo e da exploração econômica da expectativa de ganho. A obra pode funcionar como uma porta de entrada para discutir a relação entre espetáculo, dinheiro e comportamento coletivo. O candidato, contudo, precisa evitar o chamado “repertório coringa”: simplesmente mencionar o filme e seguir adiante. O ideal seria explicar de que maneira a representação cinematográfica permite compreender um fenômeno contemporâneo no qual o entretenimento, a publicidade e a expectativa de lucro podem se aproximar.

Há ainda um repertório muito importante: o conceito de “sociedade do espetáculo”, desenvolvido pelo filósofo francês Guy Debord. Em uma possível redação sobre bets, essa referência poderia ajudar o estudante a discutir a transformação de determinados acontecimentos em produtos de consumo e entretenimento. O futebol, por exemplo, deixa de ser apenas uma manifestação esportiva e passa a ser associado, em determinadas estratégias publicitárias, à possibilidade de apostar durante a própria partida. Assim, a experiência esportiva pode ser atravessada por uma lógica comercial. A força do repertório, novamente, estará na explicação: não basta escrever “segundo Guy Debord, vivemos em uma sociedade do espetáculo”. É necessário mostrar como o espetáculo se relaciona com a mercantilização da experiência esportiva.

Outra possibilidade seria utilizar o filósofo Michel Foucault, principalmente para discutir mecanismos de controle, vigilância e construção de comportamentos. A tecnologia permite registrar padrões de navegação, oferecer anúncios personalizados e direcionar conteúdos ao usuário. Nesse contexto, o candidato poderia refletir sobre como o ambiente digital influencia escolhas e comportamentos. Mas eu faria uma advertência aos meus alunos: não utilizem Foucault para dizer que “as bets vigiam as pessoas” sem demonstrar o mecanismo dessa influência. A argumentação precisa estabelecer relações concretas entre tecnologia, publicidade, dados e comportamento. Caso contrário, teremos apenas um nome famoso colocado no meio do parágrafo.

A Literatura também pode ajudar. Machado de Assis, por exemplo, permite discutir a ambição, o interesse e as contradições humanas; Aluísio Azevedo, por sua vez, possibilita pensar na influência do meio social sobre os indivíduos. O candidato poderia ainda recorrer a George Orwell, em 1984, caso desejasse discutir tecnologia, controle e manipulação — desde que estabelecesse uma relação realmente pertinente com o recorte proposto. Eu insistiria, porém, em uma regra essencial: não force a obra literária para dentro da redação. O repertório deve entrar porque ajuda a explicar o problema, e não porque o aluno decorou determinado livro.

Existe também uma dimensão jurídica e social que pode elevar bastante a qualidade da argumentação. O candidato pode mencionar a regulamentação das apostas de quota fixa no Brasil e discutir a necessidade de mecanismos de proteção ao consumidor, transparência, publicidade responsável e prevenção de comportamentos problemáticos. A legislação brasileira passou por mudanças recentes para disciplinar o setor, o que permite ao estudante demonstrar que o fenômeno das bets não é apenas uma questão individual, mas também um desafio regulatório. Se a proposta apresentar como problema a vulnerabilidade de determinados grupos, será possível discutir a responsabilidade compartilhada entre Estado, empresas, plataformas, meios de comunicação e sociedade.

E aqui eu chegaria a um dos pontos que mais derrubam candidatos: a culpabilização da vítima. Escrever que “as pessoas apostam porque são gananciosas” é uma simplificação perigosa. Uma redação de alto nível precisa reconhecer que existem diferentes fatores envolvidos: publicidade, facilidade de acesso, expectativa de ganho rápido, influência de figuras públicas, ambiente digital, dificuldades econômicas e mecanismos psicológicos associados à repetição das apostas. Isso não significa retirar a responsabilidade individual, mas compreender que fenômenos sociais complexos não possuem uma única causa. O ENEM valoriza justamente essa capacidade de análise.

Na conclusão, eu ensinaria meus alunos a não escreverem aquela velha fórmula vazia: “Portanto, o governo deve resolver o problema”. Quem? Faz o quê? Como? Para quê? Se o problema for a exposição de jovens à publicidade de apostas, uma proposta poderia envolver órgãos reguladores e plataformas digitais na ampliação de mecanismos de proteção e fiscalização, acompanhada de ações educativas nas escolas sobre educação financeira e cidadania digital. Se o foco estiver nos impactos econômicos e comportamentais, a intervenção poderá priorizar campanhas de conscientização, orientação financeira e mecanismos de prevenção. A proposta precisa ser detalhada e respeitar os direitos humanos, atendendo às exigências da Competência V.

Eu também lembraria ao candidato que uma redação nota 1000 não nasce de uma coleção de citações famosas. Ela nasce da articulação entre tese, argumentos, repertório, coesão e proposta de intervenção. Um texto pode citar Aristóteles, Bauman, Debord, Foucault, Orwell, Machado de Assis e ainda assim fracassar se não responder ao problema proposto. Por outro lado, um candidato pode utilizar apenas dois repertórios muito bem escolhidos e construir uma argumentação extremamente consistente. Portanto, eu diria à minha turma: não estudem cem citações; estudem conceitos. Não decorem frases; compreendam ideias. Não procurem apenas repertórios “bonitos”; procurem repertórios que possam ser explicados e relacionados ao tema.

Se as bets realmente aparecerem algum dia na proposta de redação do ENEM, eu gostaria que meus alunos não entrassem em pânico. Eu gostaria que eles lessem o tema, delimitassem o problema, formulassem uma tese e lembrassem que escrever bem significa pensar bem antes de escrever. As apostas esportivas são apenas a superfície de uma discussão muito maior sobre tecnologia, consumo, publicidade, dinheiro, comportamento e vulnerabilidade social. E talvez esteja justamente aí a grande lição para quem deseja a nota máxima: o ENEM não quer saber apenas se o candidato conhece o assunto; quer descobrir se ele consegue transformar um fenômeno contemporâneo em uma análise crítica, organizada e socialmente responsável. Afinal, diante de uma sociedade que aposta cada vez mais na velocidade, na promessa de dinheiro fácil e na gratificação imediata, talvez a maior aposta do estudante seja outra: apostar na própria capacidade de pensar.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.