sábado, 30 maio, 2026

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Artigo: Flávio Bolsonaro posa ao lado de Trump em versão ‘pacote premium’ do Madame Tussauds

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Na política, uma fotografia raramente é só uma fotografia. Em tempos de redes sociais, a imagem deixa de registrar um momento e passa a disputar narrativas. Foi exatamente isso que aconteceu com a foto do encontro entre Flávio Bolsonaro e Donald Trump. O debate acabou saindo do conteúdo da reunião e indo para algo que, muitas vezes, pesa ainda mais: a linguagem silenciosa do poder.

Há também um detalhe impossível de ignorar. A imagem de Flávio parece saída de uma ala lateral do Madame Tussauds: aquele instante constrangedor em que o turista tenta parecer íntimo da estátua de cera, sorri além da conta e posa como se tivesse acesso aos bastidores da história. Faltou apenas a plaquinha “não toque na obra”.

Existe uma razão para isso. Gestos, posições e enquadramentos sempre carregam significados. Quem está no centro, quem aparece sentado, quem ocupa mais espaço, quem está ao lado ou ao fundo — tudo isso pode gerar interpretações, certas ou não, sobre quem conduz a cena.

Na imagem, críticos enxergaram uma relação de desequilíbrio. A leitura feita por muitos foi a de que Flávio apareceria numa posição secundária, passando uma imagem de pouca autonomia política — algo entre o assessor satisfeito e o visitante agradecido. E aí surgiu a crítica mais forte: para quem deseja representar um país do tamanho e da importância do Brasil, espera-se a postura de alguém que ocupa a mesa, e não apenas a borda da fotografia.

Esse ponto ganhou ainda mais força porque não seria a primeira vez que a relação política com Trump desperta esse tipo de comentário. Em outras ocasiões, críticos já apontaram que a aproximação transmitiria uma reverência excessiva. Para esses observadores, a imagem construída lembra mais alguém em busca de validação internacional do que uma liderança nacional defendendo interesses próprios.

É justamente aí que entra a discussão mais ampla. O problema, dizem esses críticos, não é cordialidade, aproximação política ou afinidade ideológica. Relações internacionais funcionam com diálogo e alianças. A questão estaria em como isso é demonstrado publicamente. Quando a postura transmite algo próximo de uma relação de dependência — o que alguns chamaram de posição de vassalagem — a imagem entra em conflito com aquilo que tradicionalmente se espera de um representante ligado à Presidência da República de um país como o Brasil.

Claro que uma foto não conta toda a história. Sabe-se que o encontro durou poucos minutos, tempo suficiente para um clique e algumas legendas estrategicamente publicadas. Mas política também é percepção. E, goste-se ou não, imagens têm força. Sobretudo na era em que diplomacia virou conteúdo de Instagram e patriotismo, muitas vezes, parece filtro de aplicativo.

A direita que tanto reivindica o monopólio dos símbolos nacionais talvez precise encontrar um novo tipo de liderança para sustentar esse discurso sem parecer figurante numa convenção conservadora em Miami. Porque existe uma diferença entre alinhamento ideológico e encantamento turístico. E, em certos enquadramentos, ela aparece mais do que o próprio personagem principal da foto.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.