domingo, 31 maio, 2026

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Artigo: Quando o Império Perde o Próprio QI

Por: Gustavo Girotto* e Raphael Anselmo **

Durante décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo a fantasia de serem o QG da inteligência global. Hollywood fazia o trailer, Harvard assinava a bibliografia e o Pentágono cuidava para que a plateia não vaiasse. Só esqueceram de avisar que, no fim, arrogância não é sinônimo de inteligência — é só arrogância mesmo.

O caso de Bernardo van Brussel Barroso poderia estar num livro de parábolas sobre decadência. Filho do presidente do STF, Luís Roberto Barroso, ele ocupava um cargo de prestígio no BTG Pactual em Miami. Mas aí veio a nova rodada de sanções do governo Trump contra ministros do STF e seus familiares — um show de geopolítica de quinta categoria. Não foi que ele “decidiu” voltar. Foi que o farol da liberdade resolveu tratá-lo como suspeito de Guerra Fria. Hoje, despacha do Brasil, longe do país que se gaba de ser a Meca da meritocracia.

Eis o detalhe que desmonta a velha narrativa: se até executivos globais e bem conectados são barrados, que chance tem o estudante estrangeiro ou o cientista que sonha com um laboratório de ponta?

O mais engraçado — no sentido trágico do termo — é que, nas últimas três décadas, os EUA gastaram trilhões em guerras que só serviram para criar mais inimigos, enquanto suas escolas caíam aos pedaços, suas universidades se elitizavam e seus jovens se afogavam em dívidas estudantis. Resultado: falta mão de obra qualificada local e sobra dependência de cérebros importados.

Hoje, boa parte da ciência, da tecnologia e das finanças americanas é tocada por não americanos. E a contradição é quase poética: o país que fecha fronteiras para se proteger da “ameaça externa” depende justamente dela para continuar pensando.

O caso de Bernardo não vai derrubar impérios, mas deixa um recado que dói: o fim do imperialismo americano talvez não venha com bombas ou invasões, mas com uma lenta hemorragia de inteligência. Não por falta de tanques, mas por falta de professores. Não por ausência de poder de fogo, mas por ausência de neurônios.

Roma já passou por isso. Governou meio mundo com estradas impecáveis e legiões invencíveis, até perceber que o inimigo mais perigoso estava dentro de casa. Imperadores que duravam menos que um pão no forno, senadores que só pensavam no próximo banquete e generais mais interessados em coroas do que em fronteiras. Os bárbaros? Só chegaram para assinar a ata do enterro.

E aí, no seu devido tamanho, vem Taquaritinga. Pequena no mapa, mas veterana nessa arte de exportar talentos. Médicos, jornalistas, advogados, engenheiros, professores — quase todos de malas prontas. Foram buscar em outras cidades o que aqui nunca se ofereceu: oportunidade, incentivo, reconhecimento. A diferença é que, enquanto os EUA perderam cérebros por soberba e guerra, Taquaritinga perdeu os seus por pura falta de ambição em construir um futuro que valha a pena ficar.

*Gustavo Girotto é jornalista;

**Raphael Anselmo é economista -, ambos são taquaritinguenses que amam a Disney…

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.