domingo, 31 maio, 2026

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Artigo: A praça, o banco e o palco

Por: Ronaldo Rodrigues*

Domingo à noite, televisão ligada, e de repente lá estava ele: Carlos Alberto de Nobrega sendo homenageado no Domingão com Huck, na Globo. E eu, ali, parado, igual à uma criança vendo um mágico tirar coelho da cartola. Não me dei conta na hora, mas confesso que revendo o programa não tive como conter a emoção. A garganta fechou, o olho marejou, e o coração… ah, o coração foi dar um rolê lá pelo final dos anos 80.

A homenagem do programa até me revelaria o ano exato: 1987. Eu tinha por volta de uns 10 anos de idade quando assisti o Carlos Alberto pela primeira vez em “A Praça É Nossa”, na antiga TVS (hoje SBT). Me lembro como se fosse ontem. A risada dele era o sinal verde pra gente rir também. Era como se dissesse: “Relaxa, tá tudo bem rir disso”. E a cada piada, ele e todos os humoristas que passavam por aquele banco me ensinavam que o humor era mais do que um escape — era um abraço. E que dar risada também era uma forma de resistir.

Eu nunca poderia imaginar que aquele menino que esperava o Sábado à noite (isso mesmo, no começo o programa era exibido aos Sábados) pra ver a Praça, ia, um dia, criar um palco próprio. Não uma praça, mas um espaço onde o humor também pudesse transitar e que também fosse sagrado. Trinta e tantos anos depois, em 2024, nasceu o Taquaritinga Comedy Show, e só agora me dei conta do quanto aquele homem, sentado num banco fixo no meio do cenário, me influenciou.

Na homenagem, falou-se muito sobre amizade, sobre lealdade, sobre o amor pelo que se faz — e aí eu me vi de novo. Porque foi assim que tudo começou por aqui também. Conversando com amigos, aquela paixão foi sendo revivida e pude me cercar de gente que ama rir e fazer rir, gente que topa fazer correria, gente que sabe improvisar e colocar a mão na massa, vender ingresso, carregar caixa de som, tudo por uma noite de gargalhada. Tudo por amor. E que sorte a minha por ter encontrado esses parceiros, leais e doidos o suficiente pra acreditar comigo nesse sonho chamado “Taquaritinga Comedy Show”.

Na homenagem teve um momento que Carlos Alberto não escondeu a saudade. Saudade do Pai Manoel da Nóbrega, dos amigos que já partiram, e até da própria trajetória. E como é louco isso… Porque a comédia tem essa mágica de disfarçar o que pesa, de colocar uma fantasia engraçada nas dores que a gente carrega. Mas ali em toda aquela emoção, só tinha verdade. Tinha memória. Tinha aquela vontade que todo comediante tem: fazer rir pra não chorar. Ou, às vezes, chorar um pouco, mesmo que rindo.

Carlos Alberto me ensinou, sem saber, que humor de verdade tem raiz. Vem da observação, do cotidiano, da convivência com gente comum. E talvez por isso o nosso palco em Taquaritinga hoje seja tão especial pra mim. Porque ele é feito pra gente daqui, com gente daqui, rindo de tudo, mas também da nossa própria história. Como quem senta num banco de praça ou em um dos bares da cidade, puxa papo e, de repente, a vida fica mais leve.

No final da homenagem, ele agradeceu com aquele sorriso sereno de quem cumpriu missão. E eu pensei: que privilégio viver em um tempo em que a gente pode assistir um Mestre sendo celebrado em vida. E que privilégio maior ainda é perceber que, mesmo de longe, ele me ensinou a fazer do humor o meu ofício — e o meu jeito de estar no mundo.

Carlos Alberto, se um dia essa crônica chegar até você, saiba: o banco da Praça é seu, mas o palco do “Taquaritinga Comedy Show” também tem um pouco da sua alma.

Obrigado por rir com a gente. E principalmente por ensinar que fazer rir… é coisa séria demais!

*Ronaldo Rodrigues é produtor cultural