sábado, 14 fevereiro, 2026

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Crônica: Gente estúpida, gente hipócrita e o país de não-leitores!

Por: Sérgio Sant’Anna*

Esses dias uma mãe de aluno indagou-me insistindo em como deveria fazer para retirar o seu filho do celular. Automaticamente afirmei que a leitura seria o ideal para trazê-lo de volta à realidade. Sair do Terra 2 (essa vida de mentira , elaborada por algorítimos, e as mazelas das redes sociais) e retornar ao Terra 1 (esse universo de verdades e desafios). Com agilidade ela me respondeu que a leitura não fazia parte dos atrativos daquele menino. Tão logo exercitei o diálogo e fui afirmando, que a leitura é o único recurso que o estudante possui para adquirir conhecimento. Mas, ela insistiu que não o forçaria. Não deveria deixá-lo com traumas.

Saí pensativo daquele breve, porém inesquecível diálogo. Aquele em que eu buscava ganhar mais um leitor para as páginas das grandes obras. Não foi desta vez. Alguns dias depois a mãe me reencontrou quando buscara seu pupilo na saída do colégio. Perguntei do desempenho do frágil menino, segundo a matriarca, e ela me disse que continuava grudado nas telas, jogando, viajando pelas redes sociais. Perguntei se a mesma lia. Disse que leu apenas nos tempos escolares porque era obrigada pelos seus professores. Entretanto, nunca fora fã da viagem pelas páginas livrescas. O pai, também, era um não-leitor. A aversão do aluno pela leitura estava selada pelo exemplo familiar. Fui mais além e indaguei qual o tempo que o casal passava nas telas de um celular quando estavam em casa. A resposta foi titubeada, esquivada, mas saiu algumas horas. Não insisti. Não almejo fazer inimigos. Despedi-me e saí.

O número de não-leitores no Brasil, segundo as últimas pesquisas, apontam para a formação de não-leitores superando ao número de leitores. Infelizmente, por algumas décadas, teremos um número maior de não-leitores superando ao de leitores neste chão que já fora pisado por José de Alencar, Machado de Assis, Rui Barbosa, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar, Raquel de Queiróz, Jorge Amado, Vinicius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, entre outros. Estes que aqui exponho serão esquecidos, alimentados pelo descaso para com nossa literatura, assim como fora com o cinema nacional até chegar “Ainda estou aqui” e “O agente secreto”. Estamos diante de uma geração de pais e filhos incapazes de exercerem seu papel. De proporem a leitura como ferramenta para nossa retirada do limbo. Seres que ainda assistem ao desrespeito com uma mulher preta perante senadores ignóbeis e aplaudem. Senhores e senhoras capazes de esquecerem o nosso passado de mortes, torturas em busca da ascensão de um ser preconceituoso e inapto ao poder, que a qualquer pedido de prisão se refugia em doenças elencadas pelo seu mundo de faz-de-conta. Estamos diante de tempos sombrios, cujo melhor jogador da seleção brasileira é um jogador que não joga pelo seu time, e que pouco está aí para seus torcedores, uma vez que é dirigente de um outro time de futebol em outra liga por aí. Homens e mulheres, que acreditam na ineficácia do estado, porém que continuam a sonegarem impostos, a desviarem dinheiro de aposentados, a forjarem aposentadorias. Senhores e senhoras que sangram os cofres públicos todos os dias em nome de Deus, Pátria e Família. Sim, esses mesmos que desejaram a morte do último papa e que esculacharam com o atual eleito. Seres que em nome da Teologia da Prosperidade admitem que os jogos de azar, através das atuais bets, são apostas legitimas, enquanto inúmeras famílias são destruídas pelo vício, pela mentira por eles propagada.

Enquanto meninos como o apresentado acima não for cercado por exemplo de leitores, não teremos uma safra de cidadãos capazes de respeitarem a nossa Constituição de 1988. Muito menos, os tópicos do amor propagado por Jesus. Este, um verdadeiro exemplo de progressista, capaz de olhar os seres humanos sem as vestes do pecado, sem as mazelas do capital, sem as amarras do preconceito. É, como dizia Gilberto Gil numa de suas inúmeras e belas composições: “Gente estúpida, gente hipócrita”. Ler é um dever!

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.