sábado, 30 maio, 2026

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Artigo: A geração marcada pela obesidade e pela ansiedade

Por: Arthur Micheloni*

Vivemos um momento crítico quando olhamos para a saúde das novas gerações. Adolescentes e crianças, que deveriam estar cheios de energia, movimento e curiosidade, estão cada vez mais parados, estressados e adoecendo de forma silenciosa. Dois problemas em especial vêm crescendo lado a lado, a obesidade e os transtornos mentais, como ansiedade e depressão.

Quem acompanha de perto essas questões sabe que estamos diante de uma epidemia dupla. Os números de sobrepeso e obesidade entre adolescentes já não surpreendem, mas continuam alarmantes. Crianças e jovens têm ganhado peso mais cedo, muitas vezes já na primeira infância, e mantido esse padrão até a adolescência. O problema é que a obesidade na adolescência não é algo passageiro, ela tem altas chances de continuar na vida adulta, criando um ciclo difícil de romper e com graves repercussões à saúde.

Não se trata apenas de “gordura acumulada” ou de aparência física. O excesso de peso, principalmente o acúmulo de gordura visceral (aquela em torno dos órgãos), está diretamente relacionado ao aumento do risco de doenças crônicas como diabetes tipo 2, hipertensão arterial, colesterol e triglicerídeos elevados, síndrome metabólica, doenças cardiovasculares, problemas articulares e até alguns tipos de câncer. Além disso, adolescentes com obesidade têm maior probabilidade de apresentar apneia do sono, desequilíbrios hormonais e, muitas vezes, problemas gastrointestinais. Ou seja, o corpo inteiro sofre.

Mas não podemos falar apenas de corpo. Há também um impacto profundo na saúde emocional e mental. A obesidade na adolescência frequentemente vem acompanhada de bullying, isolamento social, baixa autoestima e dificuldades na construção da própria identidade. É comum que adolescentes com excesso de peso relatem vergonha do próprio corpo, evitem atividades sociais, pratiquem menos esportes e tenham mais dificuldade para estabelecer vínculos. Essa combinação aumenta os riscos de ansiedade, depressão e até pensamentos suicidas, algo que muitos adultos ao redor, inclusive pais, nem sempre percebem.

O que alimenta essa epidemia? São muitos fatores combinados. O avanço da tecnologia e do mundo digital, por exemplo, fez com que os jovens passassem muito mais tempo sentados, diante de telas, navegando em redes sociais, jogando videogames ou consumindo conteúdo online. Ao mesmo tempo, o ambiente alimentar mudou radicalmente. Nunca tivemos tanta oferta de ultraprocessados, fast foods, bebidas açucaradas e snacks hipercalóricos, acessíveis a preços baixos, enquanto alimentos frescos e naturais ficam muitas vezes em segundo plano e mais caros.

Além disso, fatores familiares e sociais têm enorme peso. Vivemos em um mundo acelerado, em que muitas famílias enfrentam jornadas de trabalho longas, pouco tempo para refeições em família, menos preparo de alimentos caseiros e mais dependência de refeições prontas ou por delivery. O marketing voltado ao público infantil e adolescente, por sua vez, reforça padrões alimentares não saudáveis, enquanto as redes sociais pressionam os jovens a atingirem corpos perfeitos, gerando uma armadilha cruel, em que a saúde emocional e a saúde física estão igualmente ameaçadas.

Por onde começar?

A solução para esse cenário não está em dietas restritivas ou imposições severas. Precisamos de uma abordagem coletiva e estratégica:

Incentivar a educação alimentar nas escolas, ensinando desde cedo o valor dos alimentos naturais e minimamente processados.

Promover a prática regular de atividades físicas, não apenas como obrigação, mas como forma de prazer, lazer e socialização.

Criar ambientes públicos seguros, onde crianças e adolescentes possam brincar, correr, andar de bicicleta e interagir.

Fortalecer o diálogo familiar, fazendo refeições em família, sem distrações, com atenção ao que é servido e compartilhado à mesa, isso ajuda não só a melhorar a alimentação, mas também a fortalecer os laços emocionais.

Oferecer acompanhamento multiprofissional, utilizando o acompanhamento de nutricionistas, psicólogos, médicos e educadores. Eles precisam trabalhar em conjunto para cuidar integralmente do adolescente, entendendo que corpo e mente caminham lado a lado.

É fundamental também mudar a narrativa, a obesidade não é fruto apenas de “falta de vontade” ou “preguiça”. Trata-se de uma condição multifatorial, influenciada por genética, ambiente, acesso alimentar, comportamento e até fatores econômicos. Quando culpamos o adolescente ou a família, apenas agravamos o problema. Precisamos oferecer acolhimento, apoio e soluções práticas, e não apenas críticas.

A boa notícia é que a prevenção funciona. Pequenas mudanças no dia a dia podem trazer grandes benefícios. Aumentar o consumo de frutas, verduras, legumes, feijões, cereais integrais e reduzir a ingestão de ultraprocessados, frituras e refrigerantes, priorizar caminhadas, brincadeiras ao ar livre, esportes coletivos e menos tempo parado, valorizar o sono de qualidade, o descanso e o equilíbrio emocional. Isso não significa buscar corpos perfeitos ou padrões inatingíveis, mas sim construir saúde, autonomia e bem-estar.

Se quisermos garantir adultos saudáveis no futuro, precisamos cuidar da saúde das crianças e adolescentes agora. Cada passo conta, e cada vitória, por menor que pareça, já faz diferença.

*Arthur Micheloni é Fisioterapeuta, Nutricionista e licenciado em Ciências Biológicas. Possui pós-graduação em Osteopatia, Fitoterapia, Ortopedia e Traumatologia, Nutrição no Transtorno do Espectro Autista e Nutrição Esportiva. Atua com abordagem baseada na Medicina Integrativa, unindo ciência e experiência clínica. Contato: drarthur@clinicamicheloni.com