Artigo: Escrever e a arte de ser

Por: Prof. Sergio A. Sant’Anna*

Todo cidadão que se sinta apto a escrever, inspirado pelas veredas literárias ou anestesiado por uma reportagem, tem total direito de expressar a sua opinião através da escrita. Que não se cale diante de uma sociedade retrógrada e exterminadora dos bons textos.        

Não pense você que o primeiro parágrafo não quis sair e julgar-se-á um derrotado. Calma lá. Para escrever há que se ter tempo. O texto deve passar pelo forno diversas vezes, ser lapidado como a jóia por um ourives. Insista. Se você acredita que este seu texto será um sucesso, passe a perseguí-lo. Seu saldo será negativo, mas nem por isso deixará de investir.

Sei que diversas vezes tropeçamos, cometemos erros imperdoáveis, mas tenhamos bom senso e passemos ao próximo. Até lá muito se aprendeu. O escritor Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), relatava que logo quando começou a sua vida de escritor levou os originais de um conto ao consagrado Érico Veríssimo. Com sua fina educação, o escritor gaúcho, consagrado, aceitou dar palpites no texto do gaúcho novato e durante três dias permaneceu com os originais. Scliar voltou para casa satisfeito, o autor de “Olhai os Lírios do Campo”, “O Tempo e O Vento”, “Incidente em Antares”, daria sua opinião sobre os escritos desse jovem escritor. Chegado o terceiro dia Moacyr tratou logo de se arrumar e dirigir-se ao escritório de Érico (pai de Luís Fernando Veríssimo). Os originais estavam rabiscados, com algumas observações. Veríssimo tratou de advertir o jovem para que tomasse cuidado com os excessos, mas tinha uma ressalva: o guri seria um grande escritor e que essa adjetivação foi notada através de seu conto, um dos primeiros. Scliar retornou para casa feliz, alegre, gritando aos quatro cantos que tinha sido aprovado pelo “Grande Érico Veríssimo”. No dia seguinte folheando seus papéis, defrontou-se com duas páginas do conto, que haviam sido esquecidas no momento que levara os originais ao escritor gaúcho. Resumo: Érico fez algumas anotações, mas não percebeu que o garoto havia deixado duas outras páginas para trás. Definitivamente o regionalista gaúcho não leu o texto. Moacyr Scliar não se decepcionou e hoje figura entre os maiores escritores brasileiros, escreveu para diversos jornais deste País. Teve várias obras publicadas. É um imortal.

Muitas vezes a voz que lhe repreende não é a mesma da sabedoria, é aquela que lhe inveja. Cuidado com os narradores onipotentes, ou seja, escritores que tudo sabem. O seu texto merece ser valorizado. Mãos à obra!

*Prof. Sergio A. Sant’Anna – Professor da Rede Adventista em Santa Catarina; Corretor de Textos em “Redação sem Medo”.

**Os artigos assinados não representam necessariamente a opinião de O Defensor!