terça-feira, 21 abril, 2026

spot_img

TOP 5 DESTA SEMANA

Notícias Relacionadas

Saúde mental feminina: Setembro Amarelo expõe desafios das múltiplas jornadas

Sobrecarga de responsabilidades, desigualdade de gênero e aumento dos transtornos emocionais tornam mulheres mais vulneráveis à depressão e à ansiedade

O mês de setembro, marcado pela campanha de prevenção ao suicídio, reforça a importância do debate sobre saúde mental no Brasil. Entre as mulheres, os índices de ansiedade e depressão apresentam taxas superiores às dos homens, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). A sobrecarga das múltiplas jornadas, somada às desigualdades de gênero e à pressão social, agrava o cenário e evidencia a necessidade de políticas públicas mais abrangentes.

Dados da OMS de 2023 apontam que as mulheres têm cerca de duas vezes mais chances de desenvolver transtornos de ansiedade em comparação aos homens. O mesmo levantamento indica que a depressão afeta aproximadamente 5,1% das mulheres no mundo, contra 3,6% dos homens. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que mais de 12 milhões de brasileiras convivam com algum transtorno depressivo.

As causas dessa disparidade são multifatoriais. Além da vulnerabilidade biológica a variações hormonais ao longo da vida — menstruação, gestação, pós-parto e menopausa —, fatores sociais desempenham papel determinante. O acúmulo de funções, que envolve a conciliação entre carreira profissional, cuidados com a família e responsabilidades domésticas, é apontado como um dos principais gatilhos de esgotamento emocional.

Outro dado preocupante refere-se ao suicídio. Embora os homens ainda representem a maioria dos casos consumados, as mulheres registram maior número de tentativas, conforme informações do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Esse comportamento está associado, em grande parte, ao sofrimento silencioso e à dificuldade de acesso a tratamentos adequados, especialmente em regiões com menor cobertura de serviços de saúde mental.

O Setembro Amarelo, criado em 2015 no Brasil, tem como objetivo ampliar o diálogo sobre prevenção ao suicídio. Nos últimos anos, o tema ganhou mais visibilidade, mas os desafios permanecem. O acesso ao atendimento psicológico gratuito, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), ainda enfrenta gargalos: o tempo de espera pode ultrapassar meses em algumas cidades. A carência de profissionais especializados, sobretudo em áreas periféricas, limita o alcance da campanha.

Além da dimensão individual, os impactos da saúde mental feminina também reverberam na economia. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), mulheres com transtornos emocionais têm maior probabilidade de enfrentar afastamentos e instabilidade profissional, o que perpetua ciclos de desigualdade no mercado de trabalho.

O Setembro Amarelo não deve se restringir a um calendário simbólico. A realidade mostra que a saúde mental das mulheres exige atenção contínua, ações preventivas e políticas estruturadas. Investir em campanhas educativas, ampliar a rede de apoio e facilitar o acesso a tratamentos são passos fundamentais para reduzir o sofrimento silencioso. Afinal, cuidar da saúde emocional feminina é também garantir avanços sociais, econômicos e coletivos.