domingo, 19 abril, 2026

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Nossa Palavra – Palavras que ferem, o peso do julgamento no combate ao suicídio

O mês de setembro nos convoca, mais uma vez, a refletir sobre um tema que a sociedade insiste em evitar: o suicídio. O Setembro Amarelo é uma campanha global, criada em 2014, que busca conscientizar sobre a importância de falar, acolher e prevenir. No entanto, em meio às mensagens de esperança e às ações de cuidado, persiste um obstáculo silencioso e devastador: o julgamento social.

Quando alguém expressa sua dor ou admite pensamentos suicidas, a resposta que recebe pode ser a linha tênue entre a vida e a morte. Infelizmente, frases como “isso é frescura”, “falta de fé” ou “é só querer melhorar” ainda são ouvidas diariamente em lares, escolas, ambientes de trabalho e até em instituições de saúde. Palavras assim não acolhem, não ajudam, não curam — apenas aprofundam feridas.

A força destrutiva do julgamento

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, no mundo, mais de 700 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos, o que representa uma morte a cada 40 segundos. No Brasil, os números também são alarmantes: cerca de 14 mil casos anuais, segundo o Ministério da Saúde. A cada uma dessas mortes, pelo menos seis pessoas próximas são diretamente impactadas, levando a um efeito dominó de dor, luto e culpa.

Mas o suicídio não acontece no vácuo. Ele está diretamente ligado a uma combinação de fatores, entre eles a depressão, os transtornos mentais, a exclusão social e, principalmente, a falta de apoio. É nesse ponto que o julgamento ganha contornos fatais. Quando a sociedade rotula quem sofre como fraco, pecador, incapaz ou preguiçoso, ela não apenas abandona o indivíduo — mas se torna cúmplice de sua dor.

Escutar é salvar

Diversos estudos demonstram que o acolhimento é uma das principais ferramentas de prevenção. Pessoas que conseguem falar sobre sua angústia com alguém que escuta de verdade têm maiores chances de buscar ajuda especializada e de encontrar caminhos para a recuperação.

Isso significa que cada um de nós carrega uma responsabilidade coletiva. Não somos psicólogos, nem médicos, mas somos humanos. E um ouvido atento pode valer mais do que mil conselhos apressados. O silêncio empático, o gesto de apoio, a frase de encorajamento, tudo isso pode ser o fio que liga alguém à vida.

A cultura do silêncio e da vergonha

O julgamento também se alimenta da cultura de silêncio que permeia a saúde mental. Quantas famílias escondem quando um parente tenta o suicídio? Quantas escolas abafam casos de automutilação para não “manchar a reputação”? Quantas empresas silenciam diante do adoecimento de seus funcionários? Esse pacto de silêncio coletivo cria um terreno fértil para a repetição da tragédia.

O tabu e a vergonha perpetuam o ciclo. Pessoas em sofrimento não buscam ajuda porque temem ser vistas como fracas ou ridicularizadas. O resultado é o isolamento, e o isolamento é o maior aliado do suicídio.

A responsabilidade social

Não basta pintar monumentos de amarelo ou usar fitas simbólicas. O combate ao suicídio exige uma transformação profunda em nossa forma de olhar para o sofrimento alheio. Precisamos substituir julgamento por acolhimento, preconceito por empatia, descaso por ação concreta.

A prevenção passa pela informação, pelo fortalecimento da rede pública de saúde mental, por campanhas de conscientização eficazes e pela abertura de espaços de diálogo em escolas, empresas e comunidades. Mas passa também por cada palavra dita dentro de casa, em uma conversa entre amigos ou em um comentário nas redes sociais.

Um chamado à reflexão

Quantas vezes você já julgou alguém que estava em sofrimento? Quantas vezes usou frases prontas para se esquivar de uma conversa difícil? Quantas vezes se calou diante de um pedido de ajuda?

O Setembro Amarelo não pode ser apenas uma data. Ele precisa ser um compromisso permanente de olhar para a dor do outro com humanidade. E isso começa em cada gesto, em cada frase, em cada palavra que pronunciamos.

Porque, sim, as palavras ferem. Mas também podem curar. Depende apenas da forma como escolhemos usá-las.