domingo, 15 fevereiro, 2026

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Jogando Limpo – Uma análise sobre o jogo, além do jogo

Por: Rodrigo Panichelli*

Hoje, deixo um pouco de lado a narrativa histórica e sentimental que costumo trazer nas minhas colunas. Afinal, quem me acompanha sabe: não sou apenas um contador de causos ou colecionador de memórias futebolísticas. Sou também um apaixonado por esquemas táticos, formas de jogar e estratégias que moldam o futebol que vemos em campo.

Por aqui, ainda nos falta uma linha mais clara de construção coletiva. No Brasil, cada treinador parece lutar para sobreviver a cada rodada. Montam esquemas baseados no próximo adversário, nas ausências do elenco e, muitas vezes, na tentativa desesperada de manter o emprego. Isso, além de gerar uma dança de cadeiras constante nas comissões técnicas, acaba refletindo diretamente na formação dos nossos jogadores. Em vez de potencializarmos aquilo que temos de mais valioso — o drible, a finta, o improviso criativo — moldamos atletas cada vez mais pragmáticos. Quase que num espelho invertido da Europa dos anos 60, 70 e 80.

Além disso, sofremos quando o assunto é organização defensiva. O Brasil não consegue, de forma consistente, preencher os espaços laterais e compactar suas linhas com sincronia. Ainda vivemos muito o famoso “cerca Lourenço”, onde o jogador finge pressionar, mas não ataca a bola de verdade. Falta intensidade, falta um trabalho coletivo mais bem executado — não por incapacidade, mas por uma cultura que ainda aceita o improviso como parte do sistema.

Enquanto isso, na Europa, não se trata mais de criar tendências. Eles já estabeleceram um padrão. Cada grande clube europeu possui seu DNA, sua identidade própria, mas o respeito ao modelo tático é inegociável. O preenchimento de espaços em campo é uma verdadeira sinfonia: organizada, precisa, onde ninguém desafina. Seja marcando pressão no campo adversário, seja retraído atrás da linha da bola, os movimentos são sincronizados e intensos. O tempo de reação sem a bola é curto, direto e coordenado. E essa diferença de abordagem, em parte, explica o abismo que se abre cada vez mais entre os clubes e seleções da Europa e os nossos representantes sul-americanos.

Não estou dizendo que não há talento aqui. Muito pelo contrário. O problema é que muitas vezes o talento é sacrificado em nome da sobrevivência do técnico ou da bagunça estrutural do clube. E assim, vamos sufocando o brilho do nosso futebol, tornando nossos jogos mais travados, menos criativos e previsíveis.

Hoje, convido você a refletir comigo: será que não está na hora de buscarmos um equilíbrio? Manter o improviso, sim — ele é parte do nosso DNA. Mas sem abrir mão da disciplina tática que nos falta. O futebol pode e deve ser belo, mas também pode ser funcional. Não precisamos escolher entre um e outro. Basta aprender a combinar as peças no tabuleiro com sabedoria.

Porque no fim das contas, o futebol é isso: arte e ciência, coração e cérebro. E é nessa mistura que mora a magia do jogo.

*Rodrigo Panichelli é colaborador d’O Defensor