Por: Rodrigo Panichelli*
Nem jogador é como antes. Nem chuteira, nem camisa, nem bola. Nem estádio, nem tática, nem gramado. E, se bobear, nem o torcedor.
O tempo passou. O futebol evoluiu.
Ou pelo menos é o que dizem.
Hoje o uniforme é mais leve que pluma. O gramado é padrão europeu. A bola tem GPS, Wi-Fi e talvez até um CPF. O GPS, aliás, é o que falta pra achar um meia-armador raiz no futebol brasileiro. Mas tudo bem.
Nos acostumamos com isso. Evolução, dizem.
Mas tem uma coisa, uma só, que não deveria ter mudado:
A comemoração de um gol.
Não dá pra aceitar que o momento mais sagrado do futebol tenha virado protocolo, dancinha do TikTok ou pose de influencer em frente ao espelho do vestiário.
Nos tempos de coelho da Páscoa (e que tempos!), jogador comemorava com alma. Com história. Com criatividade.
Tinha o Viola imitando o porco.
O Paulo Nunes com máscara de porco também.
O Euller voando com os braços abertos.
E a cada feriado, alguma graça.
Na Páscoa, coelho.
No Natal, Papai Noel.
Se o jogo fosse perto do Halloween, tinha até susto.
Hoje, se o sujeito faz uma graça, vem a cartilha da FIFA, a circular da CBF, o VAR da emoção.
E aí o gol, que é o clímax da ópera futebolística, o abraço coletivo da arquibancada, a explosão do coração, vira uma selfie sem alma. Um dedo apontado. Uma ostentação sem sabor.
O futebol não pode virar um banco. Nem um desfile de egos.
Gol é grito, é riso, é correria, é cambalhota. É coreografia com sentido. É homenagem à mãe, ao filho, ao cachorro, ao bairro. É sátira, é irreverência, é a nossa última rebeldia dentro das quatro linhas.
Por isso, meu apelo neste tempo de Páscoa foi:
Cadê o coelho dos gols? Cadê a alegria lúdica de celebrar? Cadê a alma no grito de gol?
Tomara que essa nova geração de atletas, que já chega cheia de apps, dados e nutrição funcional, traga também de volta a poesia na comemoração.
Porque enquanto o gol for o gol, ele jamais poderá passar despercebido.



