sábado, 18 abril, 2026

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Crônica: Uma vida que merece ser vivida: é sempre tempo de renascer

Por: Sérgio Sant’Anna*

A cidade despertava lentamente naquela manhã de Páscoa. As ruas ainda guardavam o silêncio de um domingo solene, e o aroma de café recém-passado atravessava as janelas abertas. Havia algo diferente no ar — não apenas a expectativa dos chocolates ou das reuniões familiares, mas uma espécie de pausa invisível, como se o tempo convidasse cada um a refletir sobre a própria existência.

Lembrei-me, então, de Sócrates, que dizia que “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Em meio à correria dos dias comuns, quantas vezes nos esquecemos de examinar nossas dores, nossas escolhas, nossos afetos? A Páscoa, nesse sentido, não é apenas um evento religioso; é um chamado à introspecção, um convite silencioso à revisão da própria vida.

Ao caminhar pela praça, observei uma criança segurando um ovo de chocolate com um cuidado quase sagrado. Aquela cena simples evocou em mim a simbologia da renovação. Tal como na obra Os Miseráveis, de Victor Hugo, em que Jean Valjean encontra redenção após uma vida de erros, a Páscoa nos lembra que sempre há possibilidade de recomeço, mesmo quando tudo parece perdido.

Nietzsche, por sua vez, afirmava que “É preciso ter caos dentro de si para dar à luz uma estrela dançante”. Talvez a vida, com suas contradições e conflitos, seja exatamente esse caos necessário para que possamos renascer. A Páscoa, nesse contexto, não elimina o sofrimento, mas ressignifica-o: transforma dor em esperança, queda em aprendizado, fim em recomeço.

Em uma mesa posta para o almoço, famílias se reuniam. Risos, histórias antigas, pequenas reconciliações — tudo parecia compor um mosaico de afetos. Recordei-me de Aristóteles, que via na amizade uma das formas mais elevadas de virtude. Para ele, viver bem era viver em comunidade, cultivando laços que dão sentido à existência. A Páscoa, portanto, também se manifesta nesses encontros, nesses gestos simples que reafirmam o valor do outro em nossa vida.

Ao mesmo tempo, há uma dimensão mais profunda, quase invisível. Na obra A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector, a protagonista mergulha em um processo intenso de autoconhecimento, confrontando suas próprias camadas mais ocultas. Assim também é a experiência pascal: um mergulho interior que, por vezes, desconcerta, mas que, inevitavelmente, conduz à transformação.

A vida, afinal, é feita de ciclos. Há momentos de perda, de silêncio, de espera — como o sábado entre a morte e a ressurreição. Mas há também o domingo, o dia em que a esperança se reafirma. Como escreveu Fernando Pessoa, “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Talvez seja essa a essência da Páscoa: ampliar a alma, torná-la capaz de atravessar a dor sem perder a capacidade de acreditar.

Quando o dia se encerrava, o céu tingia-se de tons dourados, como se anunciasse, discretamente, a beleza de recomeçar. E, naquele instante, compreendi que a Páscoa não está apenas no calendário, mas na forma como escolhemos viver: na coragem de mudar, na disposição de perdoar, na esperança que insiste em nascer, mesmo depois das noites mais longas.

Assim, entre chocolates e reflexões, entre filosofia e literatura, a Páscoa revela sua verdadeira mensagem: viver é, antes de tudo, um constante renascer.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.