Por: Gustavo Antonio Ascencio*
Mudei-me de casa recentemente, e quis o destino que esse processo, sempre árduo e perene, fosse potencializado pelo fato de eu estar, profissionalmente, também em um processo igualmente árduo e perene — estava corrigindo redações vestibulares em larga escala, digamos apenas (já que um contrato me impede de me aprofundar mais do que isso). Felizmente tive uma enorme ajuda de minha companheira, amigos e familiares e, graças a esse apoio, no final tudo deu certo.
Minhas percepções de tempo e espaço, assim como a organização de móveis e caixas, são improvisadas até o momento. Sei, por exemplo, que ainda estou usando o primeiro sabonete de banho comprado, o que me caracteriza automaticamente como um iniciante nesse novo lugar, quase um convidado que leva o seu kit de sabão, bucha e toalha para uma viagem; o sol é muito presente na sala de inúmeras janelas e aberturas, de modo a sempre me dar a impressão de que ainda há muito tempo disponível de um dia que, na verdade, já está se despedindo (uma forma bonita de dizer que perco a noção do tempo e me atraso para alguns compromissos). Esta pequena crônica, por exemplo, também é um improviso por si só condicionado à minha atual situação: escrevo-a logo abaixo de uma lista de compras.
Talvez, até que novas e mais sólidas referências se estabeleçam, sejam válidos os improvisos, porque às vezes aguardamos o momento certo para tudo – mudar de casa, mudarmos de carreira, nos mudarmos – e, ao final, ficamos sempre nessa eterna espera. Mas uma hora o sabonete primogênito, adquirido às pressas numa primeira compra caótica, dará lugar ao segundo, e este ao terceiro; novas embalagens, novos aromas, novas marcas virão e, quando você menos espera, já está cantando no chuveiro.



