sábado, 18 abril, 2026

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Crônica: Enquanto a preocupação era com presentes caros, a deusa Tecnologia fazia questão de celebrar mais um Natal

Por: Sérgio Sant’Anna*

Primeiramente, gostaria de comunicar a vocês que este professor que vos escreve esta crônica está oficialmente de férias. Isso, docente em modo ”on”. Agora, quero deixar claro que mais um Natal se aproxima e com ele o final de mais um ano. Como dizia um amigo professor: “Mais um dia, menos um dia…”, portanto, meus amigos, “Cape diem”, a vida deve ser aproveitada, saboreada. São Paulo disse lá em sua encíclica aos Coríntios: “…nem tudo que me é lícito, me convém”. Cuidado ao confundir liberdade com libertinagem. Aqueles que foram meus alunos no Colégio Objetivo e no COC devem se lembrar dessa minha máxima lá no início dos anos 2000.

Natal por aqui com calor, porém com um silêncio distinto daquele que não chegava lá nas nossas ceias familiares nos anos 80, 90 e 2000. Um silêncio que agora divide espaço com as mensagens de celulares nas mesas natalinas. Olho para o pisca-pisca e ele teima em queimar apenas algumas luzes. Comprei-o na feirinha noturna do Brás, mas ele já passou da sua garantia, sobrevive desde 2009. Não há conserto para aquelas luzes que nos deixa na penumbra. Não o deixo, não o jogo no lixo, pois ele faz parte da tradição. Ele é como a ceia, um sinal da repetição.

Tia Ci grita lá da cozinha como estão os namoros, digo que estou tranquilo, acredito que se minha avó Carmem fosse viva diria que precisava me casar novamente, nada de ficar solteiro. Mas, isso é coisa de vó. Sinto o cheiro de carne lá fora queimando ao som de muito pagode anos 90, meus primos ainda insistem no bom e velho pagode. Supremo. A última instância da boa música brasileira, donos de introduções musicais impecáveis – vide Raça Negra. Porém, mais ao canto um grupo de jovens amigos dos filhos dos primos conectam-se em seus celulares e se manifestam através das suas músicas individuais. Cada um com seu “spotify”. São muitos termos estadunidenses, isso me faz relembrar uma crônica do saudoso Veríssimo, que nos deixou neste ano de 2025, cujo enredo discorria sobre os empréstimos e seus significados em língua portuguesa brasileira, vocábulos estes que os mais novos fizeram questão de abolirem. Um primo mais novo, nascido ao final dos anos 90 explica para uma amiga da minha mãe o que é inteligência artificial. Na sala, a Tia Joelma prepara a foto dos presentes do amigo secreto para ser postada em suas redes sociais. Marcará todos, embora muitos já avisaram-na para os deixar de fora dessa lista. O peru é tradição, assim como a leitoa, a maionese não pode faltar, mas antes tudo estará nas redes sociais, esperando os “likes”. Sem engajamento não há cerimônia natalina que se mantenha. Todos necessitam apreciarem o Natal de todos. Há o mundo de saber que a felicidade que aqui habita deve habitar aí também. Quanta falta de criatividade…

Do nada o transformador estoura. As crianças comemoram, os adultos pedem silêncio, mas é festa. Todos com o “5G” ligado, pois o wi-fi morreu. A televisão desligou. Alguém pede velas. Não há mais. A gurizada liga as lanternas dos celulares. Alguns acharam que deveríamos trocar o fusível, mas esses já não existem mais…outros pedem pelos funcionários da companhia de energia elétrica, porém agora é tudo controlado através de painéis gerenciados por computadores guiados por inteligência artificial. Quando a energia retorna, aquela amiga da minha mãe entedera o que é essa loucura, a substituição do homem pela máquina.

Conversamos muito, mas a todo momento recorremos aos nossos celulares para mostrar um “meme”. Continuamos a reclamar da uva-passa na maionese. O tempo passou rápido demais. Isso sim é um crime. Muitos não fazem mais parte da foto que se difundirá pelas redes sociais, contudo um neto da minha tia diz que estarão sim presentes, pois a inteligência artificial os reviverá. Acreditava na ressurreição. No encontro no Céu. E num instante o adolescente elimina essa parte e traz à tona uma deusa – A Tecnologia. Esta que faz renascer nossos mortos… A música continua após a foto. Fizemos um pouco de silêncio. Uma pausa para um mínimo das antigas novenas, pois os mais velhos insistem. Há aqueles garotos que não largam o celular, mesmo diante da oração. Parece que uma nova religião nasceu. Sim, essa controlada pela deusa Tecnologia. Enquanto isso a reflexão estava diante dos presentes caros, mas este talvez seja o menor dos problemas neste Natal.

Feliz Natal a todos e um Próspero Ano Novo.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.