domingo, 15 fevereiro, 2026

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Artigo: Alexandre de Moraes – riqueza e poder na lona

Por: Gustavo Girotto* e Raphael Anselmo **

Alexandre de Moraes venceu Elon Musk. Não é uma frase trivial, tampouco metafórica demais para ser descartada como exagero retórico. Musk é, segundo as listas que alimentam a autoestima do capitalismo, um dos — senão o — homens mais ricos do planeta. Moraes é ministro do Supremo Tribunal Federal brasileiro, cargo que não vem acompanhado de foguetes, carros elétricos ou redes sociais bilionárias. Ainda assim, foi o brasileiro quem saiu de pé.

Na mesma sequência lógica, a Lei Magnitsky — aquela arma jurídica de alcance global, concebida para punir autocratas, cleptocratas e vilões internacionais — foi anunciada, aventada ou soprada como possibilidade contra Moraes. E, logo depois, esvaziada. Revogada, talvez. Arquivada no mesmo lugar onde repousam as ameaças grandiloquentes que não sobrevivem ao contato com a realidade institucional.

O raciocínio, nesse ponto, se impõe com uma clareza quase didática: se Alexandre de Moraes enfrentou o capital concentrado em sua versão mais exuberante e resistiu ao poder político internacional em sua forma mais intimidatória, a pergunta deixa de ser retórica. Quem, afinal, é o mais forte?

No Brasil, aprendemos a desconfiar de respostas simples. Mas há algo de revelador nesse episódio. O poder, quando sustentado por instituições — imperfeitas, criticáveis, frequentemente opacas — ainda consegue impor limites ao dinheiro e à bravata. Não por virtude moral, mas por arquitetura.

Moraes não venceu por ser Alexandre; venceu porque ocupava um lugar onde o poder não depende de likes, ações em bolsa ou seguidores.

É um paradoxo curioso: em um país onde quase tudo parece negociável, o Supremo, vez ou outra, lembra que nem tudo está à venda. Nem mesmo quando o comprador é o homem mais rico do mundo.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também ascendeu ao protagonismo com discrição nesta crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos sem alterar o tom de voz. Com a habilidade que o caracteriza, saiu da sombra longa de Celso Amorim — assessor especial do Planalto e arquiteto da política externa lulista desde os primeiros mandatos de Lula. Neste terceiro governo, Amorim voltou a ocupar o centro do palco em episódios sensíveis, como as posições sobre a guerra na Ucrânia e a eleição venezuelana. Desta vez, porém, quem conduziu a orquestra foi Vieira. Sem gestos largos nem frases de efeito, tornou-se a peça-chave de uma vitória diplomática brasileira — dessas que não rendem manchete estridente, mas fazem efeito duradouro.

Vale relembrar, a título de contraste pedagógico, o chanceler Ernesto Araújo, aplicador zeloso daquela tarefa penosa, mas reveladora, de transformar ideologia em política externa — e falhar com método. Indicado por Olavo de Carvalho, o autoproclamado “guru da nova direita”, que pensava o Brasil desde a sala de estar nos Estados Unidos, Araújo acreditava estar fornecendo a base intelectual do que o bolsonarismo chamou, com entusiasmo messiânico, de “nova era”.

Comparadas a um Mauro Vieira, suas “conquistas” não chegam a ser pequenas: tornam-se vexatórias no plano do pensamento e praticamente inexistentes no da prática. A diplomacia, afinal, não é lugar para cruzadas metafísicas — é onde ideias imaturas costumam pedir asilo e não encontrar.

A lona, ao fim, não cobre Moraes. Cobre a ilusão de que riqueza absoluta equivale a poder ilimitado. No Brasil real — esse laboratório improvável da política contemporânea — a força ainda pode vir de onde menos se espera: de um gabinete, uma caneta e a convicção de que, pelo menos desta vez, o jogo não era de mercado.

E aí chegamos ao candidato da direita, Flávio Bolsonaro, que logo na primeira investida fez questão de esclarecer o método: existe um “preço” para não levar a candidatura “até o fim”.

A pergunta não é qual é o preço. A pergunta é: qual é a novidade? Nenhuma.

A família Bolsonaro jamais operou no terreno das ideias. Sempre preferiu o balcão. Joias que entram e evaporam, 51 imóveis que surgem como milagre imobiliário, mandatos usados como moeda de troca e silêncios cuidadosamente remunerados. Não é ideologia — é tabela.

Quando Flávio fala em “preço”, não comete um deslize retórico. Apenas verbaliza, com sinceridade involuntária, a lógica que regeu sua trajetória pública: tudo é negociável, inclusive a própria candidatura.

Vale lembrar que Flávio Bolsonaro também protagonizou o papel de Willy Wonka tropical: personagem de uma franquia da Kopenhagen instalada no shopping Via Parque, na Barra da Tijuca. Foi ali que promotores do Ministério Público cruzaram dados e levantamentos bancários para apontar o local como instrumento usado, segundo a investigação, para disfarçar a origem de recursos desviados dos salários de servidores da Alerj — o esquema conhecido como rachadinha, no período em que Flávio era deputado estadual. Os dados mostraram depósitos em espécie elevados fora do calendário da Páscoa, justamente quando a rede costuma vender menos chocolate.

A candidatura de Flávio Bolsonaro é, portanto, um balão de ensaio. Não passa da página dois. Porque há apenas uma coisa que ele não pode perder — e que explica todo o resto: a imunidade.

*Gustavo Girotto é jornalista.

**Raphael Anselmo é economista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.