Por: Sérgio Sant’Anna*
Não quero que aborretem meu túmulo com flores, alimentando à saudade e causando mais dor. Porém, também, não almejo que esqueçam de mim. Desejo que nas memórias recordem daqueles momentos felizes que passamos. Dos nossos sorrisos fáceis, dos diálogos inspirados, das garrafas de cerveja que viramos, do trabalho bem realizado, daquela partida de xadrez inesquecível.
Lembram-se daquela aula que eu ministrei?! Ah, foram tantas…aqueles gestos inesquecíveis, as palavras repetidas abundantemente, a intertextualidade que não poderia se ausentar. Além é claro da vestimenta que vocês sempre elogiavam. Eu fazia propositalmente. Para que prestassem atenção ali naquele que falava, assim como o perfume que eu desfilava, e enchia de flores os caminhos por onde passava. Não é convencimento. É verídico. Fato. Nada de verossimilhança. Agradeço aos que sempre desejavam falar como eu falava, como pronunciava as palavras, todavia era minha obrigação como professor de Língua Portuguesa. E eu amei esta língua como muitos, continuo amando-a. Para sempre amar-te-ei. Parecendo um Michel Temer ao usar à mesóclise. Sim, eu sei que são dessas comparações, desse mundo de analogias, que você gosta que eu faça. São sim de situações cotidianas que o discente adquire o prazer em conhecer e aprender sua língua.
Falar da minha profissão merece um segundo parágrafo, até por que se mistura com a minha vida. Até aqui, com 47 anos, são 25 anos de sala de aula. Passei por três Estados brasileiros, sempre muito bem aceito, pois a língua, a comunicação, o diálogo sempre foram minhas armas.
Os meus argumentos saltam através do conhecimento, este adquirido através da leitura. E dela não me distancio. Só penso em cada vez mais alicerçar os nossos laços. E sempre há espaço para mais. O conhecimento é infinito, nós que somos infinitos. Dele não me separarei, mas sei que aqui ele ficará e servirá para outros. Assim como os meus argumentos serem contestados, derrubados, e aí está o sucesso de todo processo dialógico. Saber que nada se sabe. A dúvida é o caminho para a aprendizagem. Por isso não me canso de dar aulas. Sei que estou mais fraco devido ao passar dos anos, mas a ânsia juvenil por disseminar conhecimento permanece. Quero que meus semelhantes aprendam e possam passar a outros, que passarão a outros…
Por fim, em suma, portanto, logo, expressões que aprendi ao longo dos anos ensinando dissertação-argumentativa, despejem sobre mim o bálsamo da verdade, as lágrimas da felicidade por ter convivido comigo; lamentem as verdades não ditas a este corpo e oculto, agora velado e consumido pelos vermes. Lugar que todos habitarão. Porém, minhas memória estarão vivas, meu legado disseminado, e a esperança de dias melhores para todos também. Até agora permaneço vivo, urge, portanto, agraciar-me se o deseja fazê-lo com sinceridade.



