Por: Gabriel Bagliotti*
No sábado, 16 de agosto, Taquaritinga não celebra apenas um marco no calendário: celebra a própria conquista da autonomia, a transição de território para município, que no nascimento carregava o nome de “Ribeirãozinho”. Embora muitos associem a data ao “aniversário da cidade”, ela carrega um significado mais profundo — o da emancipação político-administrativa, que deu início a uma jornada de autodeterminação e desenvolvimento.
A história começa em 8 de junho de 1868, quando Bernardino José de Sampaio, à frente de outros proprietários rurais, realizou a doação de terras que originou o patrimônio de “São Sebastião dos Coqueiros”. As 180.000 réis de terras, repletas de coqueiros, marcaram o ponto de partida para o núcleo urbano que viria a se transformar em Taquaritinga. Bernardino, figura central desse processo, não foi apenas o maior doador — com quinze alqueires de terra — mas também um líder comunitário, primeiro juiz de Paz e primeiro presidente da Câmara Municipal. Sua visão e compromisso se tornaram alicerces da cidade.
O caminho de Taquaritinga, contudo, não foi feito apenas de prosperidade e consensos. Em 1902, a cidade foi palco da Revolta de Ribeirãozinho, uma tentativa frustrada de restauração monárquica, rapidamente contida pelo governo republicano. Episódios como este mostram que a história local também é marcada por disputas, transformações políticas e pela capacidade da comunidade de se adaptar a novos tempos.
Outro símbolo dessa força coletiva é o Clube Atlético Taquaritinga, fundado em 1942, cujo estádio, o Taquarão, foi erguido em apenas 89 dias, graças ao esforço conjunto da população em 1983. A grandiosidade do feito contrasta com o abandono vivido em 2014, quando o estádio foi interditado por problemas estruturais — reflexo do descaso das administrações. Hoje, o “Leão da Araraquarense” volta a reacender o orgulho local, com a torcida sonhando com o acesso à Série A3 do Paulista.
A identidade de Taquaritinga foi moldada também pela chegada de imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, que não apenas enriqueceram a cultura local, mas também influenciaram o comércio, o trabalho e até mesmo o modo de pensar e se relacionar. A herança católica e o conservadorismo, por sua vez, deixaram marcas na arquitetura e nos costumes, tornando a cidade um mosaico de tradições e transformações.
A celebração da emancipação, portanto, não deve se limitar a discursos protocolares ou ao orgulho pela história contada. Ela exige reflexão. A Taquaritinga que herdamos é fruto do trabalho de pessoas que acreditaram na coletividade e no futuro, que ergueram escolas, igrejas, praças, clubes e empresas com a força de suas próprias mãos. Hoje, a pergunta que nos cabe é: estamos honrando esse legado?
Bernardino José de Sampaio e tantos outros deixaram um exemplo de compromisso que vai além da política, da economia e da cultura. Deixaram a lição de que progresso é fruto de união, visão e responsabilidade. Se quisermos que, no futuro, nossas ações também sejam lembradas como marcos positivos, precisamos tratar a cidade com o mesmo zelo e determinação de seus fundadores.
Celebrar a emancipação é, acima de tudo, reconhecer que fazemos parte de uma história em construção. E que cabe a nós decidir se ela será marcada pelo abandono ou pelo avanço. Afinal, o tempo, assim como as páginas da história, não espera por quem fica parado.
*Gabriel Bagliotti é jornalista responsável e diretor presidente de O Defensor.



