quinta-feira, 30 abril, 2026

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Artigo: Uma jaula, uma leoa, o espetáculo e a culpa do Estado

Por: Sérgio Sant’Anna*

Quando o guri apelidado de “Vaqueirinho” adentra à jaula de uma leoa, ali entra com ele toda a responsabilidade de um Estado omisso para com aqueles que são vítimas das doenças psíquicas. A esquizofrenia que o acometia possuía um histórico de abandono e condenação. Avó esquizofrênica, mãe esquizofrênica. E um Estado ainda iminente diante das garantias aos doentes mentais. Um sistema apenas capaz de rotular os doentes mentais e jogá-los, literalmente, à jaula dos leões.

Em “História da loucura” Foucault apresentou ao mundo a “Nau dos loucos”, ou seja, aquela em que partia sem destino: doentes mentais, mendigos, leprosos, viciados em bebidas alcoólicas, dentre outros, rumo a um futuro incerto, cercado por águas, distantes da civilidade, entregues ao destino abissal. Um genocídio. Um atentado que até hoje se perpetua, diante de atitudes como a do prefeito de Florianópolis, que insiste em interrogar os que chegam à Capital sem ter onde residir. Logo são enviados de volta (mas para onde?). Assim funciona muitos dos trabalhos realizados por Secretarias de Assistência Social, ou seja, o problema não é meu, retorne para seu local de origem. A desumanidade ainda reverbera, grita, insiste em ficar entre nós. E com isso trabalhos sociais e garantias efetivadas pela Constituição de 1988 se esfarelam nas mãos da desumanidade.

O escritor carioca Lima Barreto em sua célebre obra, “Cemitério dos vivos”, demonstra ao mundo um universo cercado pelos maus tratos, o abandono e a incompreensão por parte daqueles que conviviam com os considerados doentes mentais. Um ambiente em que o autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, sentiu na pele por duas vezes ao ser internado no Pinel na cidade do Rio de Janeiro. Lugares como este que se espalharam pelo mundo e no Brasil não foi diferente. A ingratidão, o abandono, a ausência de higiene, homens e mulheres levados ao desumanizar-se. Porém, foi Nise da Silveira que o tratamento mental humaniza-se no país de Machado de Assis, este que com sua obra “O alienista”, demonstra, de maneira irônica, o tratamento dado aos tristemente chamados de “loucos” pela sociedade.

“Vaqueirinho”, Gerson de Melo Machado, 19 anos, foi enterrado na presença da mãe e de uma prima. O ritual fúnebre marcou, infelizmente, o fim de uma trajetória de abandonos, de ausência do Poder Público em relação a mais uma vítima das doenças psíquicas no Brasil. País em que as vítimas dessas patologias ainda são discriminados e tratados como não-cidadãos pela sociedade e seus governantes e legisladores.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.