segunda-feira, 16 fevereiro, 2026

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Artigo: O CEO da Pátria S.A.

Por: Gustavo Girotto* e Raphael Anselmo**

Tarcísio de Freitas acordou acreditando que governa uma empresa. No organograma imaginário que traz no bolso, São Paulo virou filial e o Brasil, no melhor cenário, uma corporation de capital aberto. Falta só decidir se a sede fica na Berrini ou na Faria Lima. O governador fala em “demitir o CEO do Brasil” como quem troca gerente de loja — e talvez nem perceba o grau de insensatez do próprio raciocínio.

A lógica é cristalina: o país seria um ativo; a população, consumidores; e o Estado, um call center terceirizado com transmissão ruim. Talvez por isso tenha privatizado a Sabesp como quem vende um estoque encalhado de verão — abaixo do preço, na pressa, confiando que ninguém vai conferir a nota fiscal. A conta final ainda está sendo discutida, mas o prejuízo estimado para o Estado orbitou os R$ 4,5 bilhões, cifra suficiente para financiar bibliotecas, laboratórios, quadras, postos de saúde.

Se São Paulo fosse mesmo uma empresa, entretanto, a auditoria externa começaria pelo pedaço que todo CEO costuma esconder: os indicadores. E aí começam as vírgulas longas.

O estado registrou os piores índices de saúde e educação da década. A educação sofreu redução inédita do mínimo constitucional desde 1988 — uma espécie de downgrade pedagógico. Salas superlotadas viraram o open space involuntário dos professores, que abandonam a docência como quem foge de um RH hostil. No SUS paulista, as filas crescem, as greves retornam, o colapso se normaliza. A perda salarial acumulada pinta o cenário como aquele balanço anual em que a diretoria tenta explicar, com gráficos inclinados para baixo, que foi “um ano desafiador”.

Na segurança pública, o livro-caixa é ainda mais cruel. O PCC segue exercendo controle acionário da criminalidade, enquanto roubos de celulares se multiplicam como microtransações de um mercado paralelo em expansão. A máfia dos combustíveis avança, postos clandestinos brotam em ritmo de franquia e até mortes por metanol passaram a frequentar o noticiário — o tipo de risco operacional que não cabe nem no relatório de compliance.

A resposta do governo paulista foi enviar o secretário Derrite a Brasília para tentar sabotar o PL Antifacção, pedir redução de poderes da Polícia Federal e balançar o Pacto Federativo como quem sacode uma máquina de refrigerante para ver se cai uma lata. O efeito colateral é conhecido: quando o Estado relaxa, o crime se profissionaliza.

E, se a gestão local já causa vertigem, o currículo nacional de Tarcísio acrescenta sua própria coleção de slides. Está lá o desejo já declarado de “dar uma vitória ao Trump”, o pedido em bastidor para liberar o passaporte de Bolsonaro, a defesa da anistia, os ataques à independência do Judiciário. Agora surgem as “terras raras”, tratadas como se fossem mercadoria de balcão, não patrimônio estratégico. É o país como asset class, a Amazônia como commodity, a geopolítica como pitch de investidor.

Mas para Tarcísio, o Brasil tem que ser um antro de mão de obra barata e desqualificada. Ao declarar que “fazer faculdade não é mais necessário” soa como um convite à resignação em um país que ainda luta para reduzir desigualdades históricas. O governador parece ignorar que a educação continua sendo a principal ferramenta de emancipação para milhões de brasileiros. Desvalorizar o ensino superior é perpetuar um ciclo em que os mais pobres permanecem dependentes dos mais ricos e poderosos, reforçando uma lógica de subserviência incompatível com qualquer projeto de desenvolvimento sustentável. Em vez de desestimular o estudo, seria mais coerente investir na formação crítica e técnica, pois é nela que reside a verdadeira rebeldia contra a escravidão moderna. Mas esse discurso tem endereço certo: você, trabalhador, para manter a mão de obra barata e obediente. Enquanto isso, o filho de Tarcísio cursa Engenharia de Produção na UnB — isso mesmo, universidade pública, uma das mesmas que eles criticam e desestimulam que o pobre busque. Na cabeça do governador segregacionista, a universidade precisa voltar a ser um espaço exclusivo para brancos ricos, sem se misturar com a plebe.

O governador quer ser CEO do Brasil e parece ignorar os avanços em diversos indicadores sociais e econômicos. Talvez até consiga. Mas antes deveria explicar aos acionistas — ou seja, aos eleitores — como pretende gerir uma nação quando não consegue equilibrar o balanço da própria filial. Porque, no fim, privatizar empresa é fácil; o difícil é governar um país que não cabe em planilha de um CEO, que só sabe fazer discurso político.

*Gustavo Girotto é jornalista.

**Raphael Anselmo é economista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.