sábado, 14 março, 2026

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Artigo: Marchinha do Naufrágio – os fiadores do caos

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Existe uma crença persistente em Taquaritinga: a de que trocar os nomes basta. Como se a política fosse um jogo de cadeiras, não um sistema. Em inúmeros artigos, nossa posição sempre foi a mesma — enquanto o campo progressista não vencer uma eleição, a cidade seguirá condenada ao looping institucional: muda o prefeito, permanece o método.

A crise exposta nesta semana no Paço Municipal não surpreende. Apenas se oficializa.

Em entrevista à Rádio Massa FM, o vice-prefeito Roberto Palomino descreveu, com franqueza rara, um governo onde o vice não participa, não decide e não é ouvido. Falou de isolamento, desinformação deliberada e desrespeito. Um retrato clássico da política municipal: estruturas frágeis, egos inflados e um poder que prefere monólogos a diálogo.

Há ainda o ruído em torno da dedicação do prefeito Fulvio Zuppani ao cargo. Quando o comando hesita, a máquina inteira range. Não é detalhe administrativo — é sintoma político.

Mas toda crise pede uma arqueologia. É preciso escavar até o momento zero: quem fiou essa candidatura? O MDB local.

Não por ingenuidade. Por cálculo. Era público e notório o estado dos cofres após a intervenção da gestão anterior. Sabia-se que o município exigiria austeridade técnica, profissionalismo e capacidade de articulação. Ainda assim, optou-se pela solução eleitoralmente viável, não pela administrativamente necessária. Governar ficou em segundo plano. Vencer bastava: – agora colhem-se os efeitos.

Nas ruas, já se percebe um movimento quase automático: cresce a simpatia por um nome do Partido Novo, que aparece, em tese, liderando preferências para uma eleição futura. Não é adesão ideológica — é fadiga cívica. Quando a política tradicional se mostra incapaz de produzir estabilidade, o eleitor flerta com qualquer promessa de “gestão”, como se palestra motivacional substituísse projeto de cidade. É a lógica do desespero organizado.

Taquaritinga vai viver, neste fim de semana, o carnaval mais bonito da região. E que viva. O carnaval ainda é esse raro momento em que a cidade se reconhece como corpo coletivo.

Mas depois da quarta-feira de cinzas será inevitável retornar à pergunta central. Quem é o fiador da desordem?

Não é o novo que envelheceu. É o velho que nunca saiu de cena. O problema não é apenas quem governa — é como se governa, para quem se governa e com qual horizonte.

A cidade não precisa de marketing político nem de gestores performáticos. Precisa de ruptura estrutural com práticas que se reciclam há décadas. Precisa de maturidade institucional. Precisa, sobretudo, abandonar a ilusão de que mudar personagens resolve enredos.

Sem isso, continuaremos assistindo à mesma peça, com figurinos diferentes.

Não é partido novo com cérebro jurássico que vai salvar Taquaritinga. Trocar sigla e manter ‘puxadinho’ não é renovação, é maquiagem de defunto. O que pode mudar a cidade é, pela primeira vez, escolher alguém com plano de governo. É apertar o botão e decretar: política não é capitania hereditária — é gestão.

Por fim, poupem-nos das narrativas criativas. Não há retórica que maquie o óbvio: um _impeachment_ só não andará porque o Legislativo é sócio majoritário do naufrágio. Todo mundo no mesmo barco furado, com carteirinha do partido fiador no bolso. Quem pariu o problema do tamanho de uma baleia, que agora embale — e cante “Lullaby and good night”, de Johannes Brahms, enquanto o barco afunda…

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.