sábado, 10 outubro, 2026
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Arte em Foco: A delicada fronteira do normal

Por: Larissa Cabreira*

Existe um equívoco muito comum sobre as distopias, o de que elas são livros de profecia. Não são. 

Margaret Atwood, autora de The Handmaid’s Tale, sempre contou que não inventou praticamente nada do que está ali. Cada regra, cada humilhação, cada engrenagem daquela sociedade já havia existido em algum lugar do mundo, em alguma época, sob algum governo. Ela apenas pegou peças espalhadas pela história e as montou na mesma sala. O que assusta no livro não é a imaginação da autora. É a memória.

A primeira lição que as distopias nos oferecem vem daí. Elas funcionam menos como bola de cristal e mais como inventário, um catálogo de coisas que a humanidade já fez e, portanto, pode voltar a fazer. Quando Orwell escreveu 1984, havia regimes reais de onde ele tirou o material. Quando Zamiátin escreveu Nós, anos antes, também. O futuro dessas histórias é só o passado com a luz apagada.

A segunda lição é ainda mais sutil. Nesses livros, quase nada começa com tanques na rua. 

Começa com vocabulário. 

Em 1984, o poder encolhe a linguagem até que certos pensamentos se tornem simplesmente impossíveis de formular, porque ninguém mais tem as palavras para eles. Começa com burocracia, com pequenas mudanças que parecem razoáveis, com hábitos que ninguém notou perder. A distopia, quase sempre, chega vestida de normalidade, com crachá, formulário e bom dia.

Há ainda um detalhe que costuma passar batido. Ray Bradbury dizia que Fahrenheit 451 não era só sobre um governo queimando livros, mas sobre pessoas que deixam de ler por conta própria, anestesiadas por telas e distrações. Então, o perigo nem sempre vem de fora. Às vezes ele chega pela porta da frente, convidado, com pipoca e controle remoto. É uma ironia que o próprio autor parecia apreciar, e que torna o livro desconfortavelmente atual para qualquer época.

Relendo esses livros agora, em outubro, a sensação é outra. Antes eu os lia com a distância confortável de quem visita um museu de horrores, certa de que a vitrine é de vidro. Hoje leio com a atenção de quem percebe, página após página, quanta ficção cabe na vida real. Não porque o mundo tenha virado romance, mas porque os autores sabiam exatamente onde olhar. Reler é isso. O livro continua igual, quem muda é o leitor, e às vezes o leitor descobre que já não consegue ler só por entretenimento.

E aqui vale atravessar a fronteira da ficção científica e entrar no sertão. Vidas Secas, de Graciliano Ramos, não tem governo de mentira, nem vigilância, nem tecnologia. Tem uma família que caminha pela seca atrás de água e de um lugar para ficar. Ainda assim, é uma das distopias mais completas da nossa literatura, e a mais difícil de chamar de invenção, porque foi escrita sobre uma realidade que existia, e que para muita gente continua existindo. Fabiano, o vaqueiro, é enganado nas contas pelo patrão sem ter as palavras nem os números para contestar. É preso sem entender direito por quê. Pensa em si mesmo como um bicho e admira quem sabe falar como livro. Está ali, sem nenhum futurismo, o mesmo mecanismo que Orwell descreveu, o da linguagem como fronteira do que se consegue pensar e reivindicar. A diferença é que ninguém precisou encolher o vocabulário de Fabiano. A vida já tinha feito isso por conta própria.

O livro termina como começou, com a família em marcha, e essa circularidade é o que o torna tão incômodo. Distopia, afinal, também pode ser um ciclo que ninguém interrompe.

Nos anos 1940, Candido Portinari pintou a série Retirantes, e quem se coloca diante dessas telas entende rápido por que ela conversa tanto com o livro de Graciliano. Os corpos são magros até o osso, os olhos fundos, as mãos e os pés enormes, desproporcionais, como se a fome tivesse deslocado o peso do corpo para as partes que ainda carregam alguma coisa, o chão e o que se segura. Não há cenário de fantasia nem inimigo desenhado. Há gente caminhando. E a gravidade daquelas figuras vem justamente dessa ausência de enfeite, porque a pintura não precisa inventar monstro nenhum para causar desconforto.

Há algo curioso na forma como a arte brasileira lidou com isso. Graciliano Ramos, antes de escrever sobre a seca, passou por uma experiência que mostra por que ele entendia tão bem de silêncio e opressão. Foi preso em 1936 e ficou meses detido sem acusação formal clara, episódio que mais tarde relatou em Memórias do Cárcere. Portinari, filho de imigrantes italianos que trabalhavam em fazenda de café, pintava gente trabalhadora desde muito cedo e sempre dizia, de um jeito ou de outro, que arte também era olhar para quem a história prefere não olhar. Escritor e pintor, cada um com seu material, fizeram a mesma coisa. Registraram aquilo que o poder costuma preferir deixar fora da moldura.

É essa, no fim, a utilidade mais duradoura das distopias, sejam elas inventadas ou herdadas da realidade. Elas funcionam como um treino de atenção. Quem lê 1984 aprende a desconfiar do vocabulário que encolhe. Quem lê Atwood aprende a reparar nas pequenas regras que parecem inofensivas. Quem lê Graciliano ou encara um quadro de Portinari aprende que a injustiça não precisa de ficção para existir, só de gente disposta a não ver. E ver, convém lembrar, é exatamente o ofício que esta coluna carrega no próprio nome.

Circula na internet uma piada que resume bem o clima do mês, a de que muita gente queria estar apenas maratonando filmes de terror, e não sentindo que vive dentro de um. Rimos, porque o riso é um jeito antigo de dar tamanho ao que assusta. Mas a piada esconde uma verdade que as distopias nunca deixaram de repetir. O terror da tela tem fim, créditos e botão de pausa. O da vida não tem, e é por isso que precisamos tanto de quem o ensaia para nós, de quem escreve, pinta, filma e canta aquilo que ainda não aprendemos a nomear. A arte não nos protege do que vem. Ela nos devolve o olhar atento, a memória longa e o vocabulário inteiro, que são as melhores ferramentas que temos para qualquer tempo, inclusive para este. 

Ao fim da sessão, acendem-se as luzes, e cabe a cada um decidir o que fazer com o que viu. 

*Larissa Cabreira é colaboradora d’O Defensor.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.