segunda-feira, 20 abril, 2026

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Alerta para a tilápia nacional: PEIXE BR contesta importação do Vietnã e pede proteção ao setor produtivo

Com mais de 237 mil propriedades envolvidas e R$ 12,5 bilhões movimentados, a piscicultura brasileira teme colapso diante da entrada de produto asiático a preços inferiores

A autorização em análise pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para a importação de filé de tilápia do Vietnã mobilizou o setor aquícola brasileiro. A Associação Brasileira da Piscicultura (PEIXE BR), entidade representativa da cadeia de produção de peixes cultivados no país, emitiu alerta solicitando a suspensão imediata da medida. Segundo a entidade, o impacto da concorrência internacional pode ser devastador, especialmente para os pequenos produtores, que representam 98% da base produtiva.

A piscicultura brasileira está em alerta. De acordo com dados consolidados pela PEIXE BR, o Brasil conta hoje com 237.669 estabelecimentos rurais voltados à criação de peixes, com Valor Bruto de Produção (VBP) estimado em R$ 12,5 bilhões para 2024. Desse total, a grande maioria é formada por pequenos produtores, o que torna a cadeia extremamente sensível a oscilações de mercado e práticas de concorrência internacional.

A tilápia é, atualmente, a principal espécie de peixe cultivado no Brasil, sendo referência mundial em sustentabilidade e tecnologia. A produção nacional se destaca pelo uso de ração vegetal, baixa exigência de proteína animal e um dos mais rígidos sistemas de inspeção sanitária e controle ambiental entre os quatro maiores produtores globais da espécie. O modelo brasileiro é estruturado em larga medida por cooperativas — responsáveis por 21% da produção total —, inclusive figurando como protagonistas nas exportações para mercados exigentes como os Estados Unidos.

Entretanto, a entrada da tilápia vietnamita no mercado interno, com preços substancialmente inferiores, representa uma ameaça imediata à estabilidade do setor. O momento é considerado crítico: os preços pagos ao produtor estão em patamares inferiores aos registrados no mesmo período do ano anterior, reflexo da redução nas exportações e da queda sazonal de consumo durante os meses de inverno.

Neste contexto, a inserção de produto estrangeiro pressiona ainda mais a rentabilidade dos piscicultores, potencializando riscos de inadimplência entre os produtores que investiram em sistemas modernos, cuja amortização financeira leva, em média, de 7 a 10 anos. A combinação de queda nos preços, aumento da oferta e concorrência internacional pode provocar efeitos em cascata, com fechamento de unidades produtivas, perda de postos de trabalho e redução no abastecimento interno de proteína animal de alto valor nutricional.

A tilapicultura nacional, que emprega milhares de trabalhadores em zonas rurais e contribui para a segurança alimentar do país, vê-se agora diante de um cenário de incerteza. Para a PEIXE BR, trata-se não apenas de uma questão comercial, mas de soberania produtiva e desenvolvimento econômico regional. A associação reitera que não é contrária ao comércio internacional, mas que este deve ocorrer sob condições de equidade regulatória, ambiental e sanitária.

A decisão sobre a autorização de importação de tilápia do Vietnã não é apenas técnica — é estratégica. Está em jogo a estabilidade de uma cadeia produtiva que gera renda, promove inclusão econômica e posiciona o Brasil como modelo mundial de aquicultura sustentável. Em nome da equidade e da segurança alimentar, a suspensão cautelar da medida é defendida por entidades representativas como instrumento necessário à proteção do setor e à manutenção de empregos no campo. Em um momento em que o país busca fortalecer sua posição no mercado internacional, a preservação da competitividade interna é elemento essencial para a construção de uma piscicultura sólida e duradoura.