segunda-feira, 16 fevereiro, 2026

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A gestão da água no campo: Produção agrícola e o desafio da sustentabilidade hídrica no Brasil

Com uso crescente da irrigação e demanda global por alimentos, setor agropecuário brasileiro é pressionado a adotar práticas mais eficientes na captação, distribuição e reuso da água

A água, recurso essencial à vida e à produção de alimentos, ocupa posição estratégica no centro do debate sobre o futuro do agronegócio brasileiro. Diante da intensificação da agricultura irrigada, das oscilações climáticas extremas e da crescente competição entre usos urbanos, industriais e ambientais, o Brasil rural se vê desafiado a produzir mais com menos água. A gestão sustentável dos recursos hídricos tornou-se imperativo para garantir a segurança hídrica, a competitividade agropecuária e a resiliência diante das mudanças climáticas.

Segundo dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a agricultura responde por 67,2% de toda a demanda de uso consuntivo de água no país — ou seja, da água efetivamente retirada dos mananciais e não devolvida ao meio ambiente. Em 2023, esse volume atingiu aproximadamente 1.023 mil litros por segundo, a maior parte empregada na irrigação de lavouras temporárias e permanentes. O Sudeste, o Centro-Oeste e o Nordeste são as regiões com maior demanda hídrica para fins agrícolas, sendo o cultivo da cana-de-açúcar, do arroz, da soja e das frutíferas os principais consumidores.

Apesar de o Brasil concentrar 12% da disponibilidade mundial de água doce, a distribuição geográfica do recurso é altamente desigual: enquanto a região Norte concentra 68% da vazão média disponível, abriga apenas 8% da população; por outro lado, o Nordeste e parte do Sudeste enfrentam escassez hídrica crônica, agravada por estiagens prolongadas e conflitos pelo uso da água. Em regiões como o semiárido, projetos de irrigação eficientes, como os do Vale do São Francisco, demonstram que é possível produzir frutas de alta qualidade com uso racional da água — porém, a adoção em larga escala de tecnologias adequadas ainda encontra barreiras econômicas e técnicas.

Com o avanço da agricultura irrigada, estima-se que o país tenha atualmente cerca de 8,5 milhões de hectares sob algum tipo de irrigação, o que representa pouco mais de 6% da área agrícola total. O potencial irrigável do Brasil, segundo o Mapa das Áreas Potenciais para Irrigação da ANA, é de aproximadamente 60 milhões de hectares, o que revela amplo espaço para crescimento — desde que sustentado em práticas conservacionistas. A intensificação da irrigação, sem planejamento e controle, pode comprometer aquíferos, provocar salinização do solo e reduzir a disponibilidade para outras atividades econômicas.

Frente a esses desafios, a Política Nacional de Recursos Hídricos, instituída pela Lei nº 9.433/1997, prevê instrumentos como o outorgamento do direito de uso da água, a cobrança pelo uso e os planos de bacia hidrográfica. Nos últimos anos, a ANA vem intensificando a gestão integrada e participativa das águas, promovendo o uso racional, a eficiência hídrica e o monitoramento em tempo real dos principais reservatórios. A aplicação de tecnologias como gotejamento, microaspersão, sensores de umidade, manejo por tensiometria e irrigação de precisão tem permitido ganhos significativos na eficiência de uso da água, reduzindo perdas e maximizando a produtividade por metro cúbico aplicado.

O reuso da água também vem ganhando espaço na agricultura brasileira, especialmente em regiões urbanizadas ou com restrições hídricas. Normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) regulam o reuso agrícola de águas residuárias tratadas, que podem ser empregadas no cultivo de culturas não destinadas ao consumo in natura. A prática, além de poupar água potável, contribui para o reaproveitamento de nutrientes, reduzindo a demanda por fertilizantes sintéticos.

A participação dos produtores rurais em programas de conservação de solo e água, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf Agroecologia), o Programa ABC+ e os comitês de bacia hidrográfica, revela um movimento crescente em direção ao uso sustentável dos recursos naturais. Incentivos públicos, certificações ambientais e exigências de mercados internacionais têm impulsionado a transição para práticas mais eficientes e ambientalmente responsáveis.

A agricultura do futuro passará, necessariamente, pela valorização e proteção dos recursos hídricos. Em um cenário marcado por incertezas climáticas, pressão demográfica e exigências ambientais, a água torna-se o ativo mais estratégico do setor produtivo. Investir em irrigação inteligente, manejo racional, reuso e governança das águas não é apenas uma escolha técnica — é uma decisão ética, econômica e ambiental que garantirá a segurança alimentar e a sustentabilidade da produção agropecuária brasileira nas próximas décadas.