Por: Larissa Cabreira*
Outubro chega e, com ele, uma luz diferente. Os dias encurtam no hemisfério norte, as sombras se alongam mais cedo, e há algo nessa mudança sutil de temperatura simbólica que desperta em muita gente um prazer quase confesso pelo sombrio. Não falo do medo bruto, aquele que paralisa, mas de uma espécie de deleite elegante com o que normalmente evitamos olhar de frente. O escuro vira estética. O macabro vira curadoria. E o mês inteiro parece existir para lembrar que há beleza em lugares que passamos o resto do ano evitando.
Essa fascinação não é nova, nem exclusiva de quem gosta de um bom filme de terror em outubro. Durante séculos, artistas pintaram crânios sobre mesas de banquete, naturezas-mortas que lembravam ao observador que toda abundância é temporária. Os vanitas holandeses do século XVII faziam exatamente isso, colocavam velas apagando, flores murchando e relógios de areia ao lado de taças de vinho, como quem sussurra educadamente “você também vai morrer” no meio de uma festa. Era beleza e aviso ao mesmo tempo, e ninguém parecia se importar com a contradição.
Não é coincidência que o ocultismo sempre tenha encontrado refúgio na arte justamente quando a ciência e a religião oficial fechavam as portas para ele. Tarôs ilustrados, grimórios decorados com símbolos alquímicos, vitrais de catedrais góticas carregados de iconografia que beira o enigmático, tudo isso floresceu porque a imagem conseguia dizer o que a palavra, sozinha, não tinha autorização para dizer. O proibido sempre precisou de um disfarce estético para sobreviver, e a arte, generosa como é, nunca negou abrigo.
O gótico, enquanto estilo, nunca realmente saiu de moda. Arcos pontiagudos, gárgulas, rendas negras, tudo isso carrega um convite silencioso para olhar de frente o que a cultura do sorriso obrigatório insiste em empurrar para debaixo do tapete. Existe dignidade na escuridão quando ela é tratada como linguagem, e não como ausência. E é exatamente isso que outubro me oferece todos os anos, uma licença coletiva, quase social, para admitir em voz alta que sempre fui mais interessada nas sombras do quadro do que na luz que incide sobre ele.
Cresci gostando mais dos vilões do que dos heróis, mais dos finais ambíguos do que dos felizes, mais do silêncio de um cemitério à tarde do que do barulho de qualquer festa comum. Não por tristeza. Por fascínio genuíno com tudo aquilo que a maior parte das pessoas prefere não olhar de frente. E é curioso perceber que, enquanto o resto do ano eu preciso traduzir esse gosto, explicar que gostar do sombrio não é sinônimo de estar mal, outubro simplesmente chega e autoriza. Por um mês inteiro, minha estética particular vira, de repente, estética coletiva.
Há uma diferença importante entre temer o escuro e dialogar com ele, e é nessa segunda categoria que gosto de me colocar. O medo paralisa, fecha os olhos, pede para a luz voltar o quanto antes. O diálogo, por outro lado, exige presença. Pede que a gente fique ali, observando o que normalmente seria descartado como sombrio demais, pesado demais, mórbido demais, até encontrar nele uma espécie de verdade que a claridade constante nunca permitiria enxergar. Outubro, com toda sua reputação de mês mais soturno do calendário, acaba sendo, paradoxalmente, um convite à atenção plena. Ninguém presta tanta atenção numa sombra quanto quem decidiu, finalmente, olhar para ela em vez de desviar o rosto.
Talvez por isso o imaginário de outubro tenha sobrevivido intacto através dos séculos, das procissões medievais às festas contemporâneas, do folclore europeu aos desfiles de fantasia que lotam as ruas. Existe algo universal nessa necessidade coletiva de, pelo menos uma vez por ano, vestir o próprio medo como fantasia e sair caminhando por aí, exibindo-o em vez de escondê-lo. É quase terapêutico, essa inversão. O que normalmente se esconde atrás de portas fechadas ganha, por algumas semanas, permissão para desfilar à luz do dia, ou melhor, à luz enfraquecida e âmbar que só outubro sabe produzir.
Essa é a graça silenciosa que outubro carrega, o mês em que posso finalmente transitar livre entre a luz e a sombra sem precisar explicar nada a ninguém. A arte sempre soube disso, soube que o escuro também ensina, também revela, também acolhe. E, por um mês inteiro, o mundo inteiro parece lembrar junto comigo.




