Eu estou meio obcecada por um personagem.
Não é exatamente uma novidade, mas nas últimas semanas isso voltou com força, talvez porque eu tenha começado a pensar no meu aniversário de 30 anos e decidido, com uma convicção meio espontânea, que vou fantasiada de Frank-N-Furter.
Talvez porque meu cabelo ajude.
Talvez porque algumas coisas simplesmente voltam quando precisam voltar.
E aí eu revisitei The Rocky Horror Picture Show… não como quem assiste um filme pela primeira vez, mas como quem encontra a própria versão adolescente guardada em algum canto do tempo e percebe que trouxe consigo o presente silencioso de não ter perdido a própria personalidade ao longo do caminho.
A primeira vez que vi aquele filme, eu era novinha, tinha 16, 17 anos, e ainda estava entendendo muita coisa sobre o mundo, sobre estética, sobre identidade, sobre o que podia ou não podia ser. Frank-N-Furter, com sua meia-calça de rede e seu batom vermelho-sangue, não pedia licença para existir, e essa é, talvez, a lição mais indecente e mais generosa que um filme trash de meia-noite já ofereceu a uma adolescente confusa: a permissão.
Não a permissão para ser igual a ele, mas a permissão para ocupar espaço com a mesma falta de pudor com que ele ocupava o seu.
Há algo profundamente cômico — e é preciso rir disso, porque o próprio filme ri de si mesmo o tempo inteiro — em admitir que, quase quinze anos depois, ainda seja aquele personagem específico que me persegue como uma música que não sai da cabeça.
Não o monstro. Não o herói.
O excesso.
Frank-N-Furter é a prova viva de que o exagero, quando é sincero, deixa de ser vergonha e vira linguagem.

Talvez seja isso que os trinta anos ensinam, ou pelo menos o que eu escolho aprender com eles; reinventar-se não é sempre um ato de fuga, às vezes é um ato de retorno. Voltar a quem a gente sempre foi, só que agora com coragem e um salto alto para admitir isso em público.
E não é à toa que The Rocky Horror Picture Show sobreviveu ao próprio tempo com uma teimosia quase religiosa. Lançado em 1975, o filme foi recebido pela crítica com o desdém reservado às coisas que ninguém sabe onde encaixar.
Nem terror, nem comédia, nem musical, nem paródia, mas as quatro coisas ao mesmo tempo, costuradas com purpurina e desafinação proposital. O fracasso comercial inicial poderia ter sido seu epitáfio. Em vez disso, tornou-se seu batismo: expulso dos cinemas convencionais, o filme migrou para as sessões da meia-noite, onde encontrou não uma plateia, mas uma congregação. Gente que ia ao cinema fantasiada. Gente que gritava réplicas para a tela como quem reza um mantra profano. Gente que, semana após semana, criava ali um dos primeiros espaços de culto genuinamente queer da cultura pop americana, décadas antes de o mainstream aprender a pronunciar a palavra sem gaguejar.
Tim Curry, no papel, não interpreta Frank-N-Furter: ele o habita, com um domínio de cena tão absoluto que transforma o que poderia ser caricatura em ícone. Há uma diferença entre vestir um personagem e emprestar sua carne, e Curry escolheu a segunda opção com uma coragem que o cinema raramente recompensa e quase nunca esquece.
Acho que é essa a herança que carrego comigo até hoje, sem cerimônia: a de que existe um tipo de arte que não pede licença para ser estranha, e que essa mesma arte, décadas depois, transforma-se em refúgio para quem também nunca soube pedir licença para existir.
Não é nostalgia o que sinto ao me preparar para os meus trinta anos vestida de Frank-N-Furter. É continuidade.
É a adolescente de dezesseis anos, ainda hospedada em algum cômodo do meu peito, finalmente convidada a sair para dançar o Sweet Transvestite, só que desta vez, sem pedir desculpas.




