Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**
É guerra. Com método, intenção e propósito. André Mendonça lançou o bumerangue.
A pouco mais de um mês da eleição presidencial, o Supremo Tribunal Federal atravessa uma das crises mais delicadas de sua história. O que durante anos ficou restrito aos votos, aos apartes e às divergências jurídicas agora ganhou contornos de guerra aberta. E o movimento mais agressivo partiu de Mendonça, o evangélico fervoroso.
Em uma sequência de decisões, pedidos de informação e diligências, o ministro mirou Alexandre de Moraes, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal. No centro da ofensiva está um inquérito que envolve Moraes e contratos relacionados à sua esposa. Até aí, poderia ser apenas mais um capítulo das disputas internas do Supremo. O problema é o bumerangue.

Enquanto Mendonça decidiu jogar luz sobre o caso de Moraes, mantém sob sigilo o inquérito da chamada Dark Horse, que envolve Flávio Bolsonaro, um dos candidatos com chances na eleição presidencial. A pergunta inevitável é simples: por que um caso deve ser aberto e o outro, fechado?
Não é preciso considerar Moraes acima de qualquer suspeita para fazer essa pergunta. Tampouco é necessário absolver o ministro de eventuais responsabilidade.
A questão é outra: em plena eleição presidencial, decisões seletivas dentro do Supremo produzem efeitos políticos — goste-se ou não deles. Mendonça pode ter pretendido atingir Moraes. Mas, ao fazê-lo dessa maneira, criou uma comparação que agora o atinge.
O bumerangue funciona assim: você pode lançá-lo com toda a força, mirando um adversário. Só há um detalhe. Ele volta.
E a volta pode ser especialmente incômoda quando a pergunta passa a ser feita não sobre quem foi atingido, mas sobre quem decidiu lançar o objeto.
Mendonça abriu uma crise para expor Moraes. Agora terá de conviver com a crise que sua própria decisão produziu.
No meio disso está uma eleição presidencial, um Supremo dividido e uma instituição que deveria ser árbitra da disputa sendo arrastada para dentro dela. Talvez o ministro tenha calculado o alcance do lançamento. O que talvez não tenha calculado foi a trajetória de volta. Se ficar comprovado que Mendonça ordenou ou autorizou a divulgação seletiva de dados sigilosos — e é justamente essa a suspeita que começa a ganhar corpo —, o bumerangue terá completado sua trajetória. E, desta vez, não voltará para atingir Moraes. Voltará para quem o lançou.
As consequências, nesse caso, podem ser drásticas. Porque uma coisa é comprar uma briga dentro do Supremo. Outra, muito diferente, é transformar o próprio cargo em instrumento de uma guerra política para incendiar o País…




