sábado, 5 setembro, 2026
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Crônica: Posto, logo existo

Por: Sérgio Sant’Anna*

Descartes, se tivesse nascido quatro séculos depois, talvez não tivesse escrito Penso, logo existo. Teria, provavelmente, aberto uma conta no Instagram, escolhido uma boa foto de perfil e, depois de alguns minutos de reflexão, publicado: “Posto, logo existo.” E talvez recebesse milhares de curtidas por isso. O problema é que, enquanto o filósofo francês precisava pensar para provar a própria existência, nós parecemos precisar ser vistos. Pensar tornou-se opcional; aparecer, aparentemente, não.

Basta observar uma manhã qualquer. A pessoa acorda, ainda com os olhos semicerrados, pega o celular antes mesmo de escovar os dentes e verifica quantas pessoas curtiram a fotografia publicada na noite anterior. Se foram duzentas, sorri. Se foram vinte, preocupa-se. Se ninguém curtiu, talvez apague. A existência, agora, parece depender de um pequeno coração vermelho na tela. O café pode estar frio, a vida pode estar desorganizada, as contas podem estar vencidas, mas é fundamental registrar a xícara: “Começando o dia com gratidão.” E lá está a fotografia, impecavelmente iluminada, testemunhando uma felicidade que talvez nem tenha acontecido.

Michel Foucault, ao discutir os mecanismos de vigilância, talvez encontrasse nas redes sociais uma versão curiosa do seu Panóptico. Já não precisamos de alguém permanentemente nos observando: nós mesmos nos colocamos diante das câmeras. Fotografamos o almoço, o treino, o cachorro, o pôr do sol, a academia, a viagem, o livro que estamos lendo e até o momento em que estamos supostamente descansando. O mais curioso é que até a privacidade ganhou plateia. O sujeito entra em um restaurante e, antes de experimentar o prato, fotografa. Vai a um show e, em vez de assistir ao artista, grava. Viaja milhares de quilômetros e passa boa parte do passeio procurando o melhor ângulo para provar aos outros que esteve lá.

Andy Warhol, quando afirmou que, no futuro, todos teriam seus quinze minutos de fama, talvez não imaginasse que esses quinze minutos seriam fragmentados em milhares de pequenos vídeos de quinze segundos. Hoje, qualquer pessoa pode ser celebridade por uma tarde. Um cachorro que rouba um pedaço de pão viraliza. Uma criança dançando viraliza. Uma discussão no supermercado viraliza. Uma queda, um casamento, um término de namoro, uma receita de bolo e até uma ida ao banheiro podem transformar-se em conteúdo. O mundo deixou de ser apenas vivido: precisa ser conteudizado.

E há algo ainda mais intrigante: não basta postar; é preciso parecer feliz. As redes sociais construíram uma espécie de estética da felicidade permanente. Ninguém publica: “Hoje acordei sem vontade de levantar da cama.” Publica-se: “Gratidão por mais um dia!” Ninguém fotografa a discussão familiar; fotografa-se o almoço de domingo. Ninguém mostra a insegurança antes de uma entrevista de emprego; mostra-se a fotografia depois da contratação. Como escreveu Machado de Assis, em sua ironia cirúrgica, o ser humano é especialista em criar aparências. O Brás Cubas do século XXI talvez não escrevesse suas memórias póstumas: faria um podcast contando a própria vida e verificaria diariamente quantos inscritos conquistou.

Até a arte parece ter antecipado nossa obsessão pela própria imagem. Na pintura “As Meninas”, de Velázquez, há um jogo fascinante entre quem observa e quem é observado. Séculos depois, continuamos presos a esse jogo, mas agora carregamos o espelho no bolso. A diferença é que o espelho moderno não apenas reflete: ele registra, edita, aplica filtros, escolhe a música e publica. Narciso, personagem da mitologia grega, apaixonou-se pela própria imagem refletida na água. Nós modernizamos o mito: apaixonamo-nos pela imagem que conseguimos produzir de nós mesmos — e ainda esperamos comentários dizendo: “Perfeito!”

Clarice Lispector talvez dissesse que há uma diferença entre existir e parecer existir. E essa diferença está ficando cada vez mais difícil de perceber. Uma pessoa pode passar uma tarde inteira sozinha, mas publicar uma fotografia cercada de amigos. Pode estar triste e publicar uma paisagem com uma frase motivacional. Pode estar exausta e postar: “Bora para mais um dia!” Pode estar viajando com a família e passar o passeio inteiro respondendo às mensagens de quem não está ali. A fotografia registra o instante, mas não necessariamente revela a verdade daquele instante.

As músicas também perceberam essa transformação. Cazuza cantou que “o tempo não para”, e talvez nunca tenha imaginado que, atualmente, além de não parar, o tempo precisa ser imediatamente publicado. Renato Russo, em Geração Coca-Cola, captou conflitos de uma geração que buscava identidade; hoje, poderíamos falar em uma geração que constrói a identidade em uma tela. E Gilberto Gil, ao cantar sobre a relação entre tecnologia e humanidade, já apontava para uma questão que se tornou cotidiana: a máquina não é mais apenas uma ferramenta que utilizamos; ela participa da maneira como percebemos o mundo e a nós mesmos.

Zygmunt Bauman, ao falar da modernidade líquida, ajuda a compreender esse cenário de relações rápidas, frágeis e substituíveis. Nas redes, até a indignação parece ter prazo de validade. Pela manhã, todos discutem uma tragédia. À tarde, o assunto é uma celebridade. À noite, uma nova polêmica ocupa os celulares. Amanhã, ninguém mais se lembrará daquilo. Postamos opiniões sobre política, futebol, educação, inteligência artificial, mudanças climáticas, relacionamentos e até assuntos que descobrimos há três minutos. A velocidade tornou-se mais importante que a compreensão. Saber virou secundário; comentar, urgente.

Talvez o mais contraditório seja que nunca tivemos tantas possibilidades de comunicação e, simultaneamente, tanta dificuldade de conversar. Mandamos mensagens de voz de cinco minutos para explicar aquilo que não conseguimos dizer olhando nos olhos. Temos centenas de contatos, mas poucos interlocutores. Publicamos frases sobre amizade, amor e empatia enquanto deixamos mensagens sem resposta. Compartilhamos campanhas pela saúde mental e, minutos depois, julgamos alguém nos comentários. O paradoxo é enorme: queremos ser ouvidos por todos, mas nem sempre estamos dispostos a ouvir alguém.

No fundo, talvez o problema não esteja em postar. Fotografar uma viagem, compartilhar uma conquista, publicar um livro, uma música, uma receita ou uma fotografia bonita também pode ser uma forma legítima de comunicação. O problema começa quando a postagem deixa de ser expressão e passa a ser prova de existência. Quando a pergunta mais importante depois de uma experiência deixa de ser “Eu gostei?” e passa a ser “Será que vão gostar?”. Quando o olhar do outro começa a determinar o valor daquilo que vivemos. Nesse momento, o like deixa de ser apenas um botão e passa a funcionar como uma pequena sentença sobre nossa autoestima.

Descartes talvez sorrisse diante de tudo isso. Depois de séculos tentando convencer a humanidade de que o pensamento era a prova da existência, descobriria que a grande dúvida contemporânea é outra: “Se ninguém viu, será que aconteceu?” Talvez a resposta seja justamente recuperar aquilo que o filósofo francês valorizava: o pensamento. Antes da fotografia, o instante. Antes da postagem, a experiência. Antes do comentário, a reflexão. Porque, no fim das contas, podemos continuar publicando, curtindo, compartilhando e seguindo uns aos outros. Só não deveríamos permitir que a tela nos convença de que, para existir, precisamos estar permanentemente diante dela. Afinal, penso, logo existo; posto, logo apareço. Mas viver mesmo talvez seja aquilo que acontece quando ninguém está olhando.

*Sérgio Sant’Anna é Professor de Redação no Poliedro, Professor de Literatura no Colégio Adventista e Professor de Língua Portuguesa no Anglo.

**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.