Por: Larissa Cabreira*
Existe um azul que é mais escuro que o preto. Chama-se stygian blue, batizado em homenagem ao rio Estige, aquele que separava o mundo dos vivos do mundo dos mortos na mitologia grega. Para vê-lo, é preciso fitar um amarelo intenso por cerca de um minuto e, em seguida, desviar o olhar para uma superfície completamente negra. Por um instante, o cérebro entra em curto-circuito, e ali, onde deveria haver apenas ausência de cor, surge um azul profundo, impossível, mais escuro do que a própria escuridão deveria permitir. Ele não existe em tinta alguma. Não existe em pixel, em pigmento, em luz. Existe, apenas, durante alguns segundos, dentro de quem olha.
Cientistas chamam esse fenômeno de “cor quimérica”: tonalidades que a mente cria quando as regras normais da visão se rompem por um instante. Há também as chamadas cores proibidas, como um verde avermelhado que nenhum ser humano jamais viu, porque os próprios mecanismos do olho se anulam antes de permitir que ela se forme. Tentar imaginá-la é como tentar lembrar um cheiro que nunca se sentiu. A mente recusa. E ainda assim, tecnicamente, ela existe, matematicamente possível, visualmente proibida.
Há algo profundamente perturbador em saber que o mundo visível, aquele que consideramos completo, definitivo, é apenas uma fração minúscula do que existe. Vemos comprimentos de onda entre 380 e 780 nanômetros, uma janela estreitíssima num espectro que se estende, invisível, para muito além dos dois lados.
Abelhas enxergam ultravioleta. Certas serpentes percebem infravermelho como se fosse calor visível.
E nós, tão convencidos da nossa própria completude sensorial, vivemos cercados por cores, formas e frequências que simplesmente não fazem parte do nosso contrato com a realidade. Não é que elas não existam. É que nós não fomos equipados para recebê-las.
O stygian blue, então, funciona quase como uma rachadura nessa parede. Por um segundo, o cérebro escorrega, os mecanismos que normalmente nos protegem de contradições visuais falham, e alcançamos, ainda que por acidente, uma pequena visão daquilo que está do outro lado da nossa própria limitação. Não é mágica. É neurociência. Mas a sensação, para quem vê, é indistinguível de revelação.
Acho que seja exatamente aí que a arte sempre quis chegar.
Todo pintor que já tentou capturar a luz de um entardecer, toda pessoa que já ficou frustrada porque a fotografia “não fez jus” ao que os olhos viram, está lidando com essa mesma fenda: a distância entre o que sentimos e o que conseguimos, de fato, registrar. Pintar não é copiar o visível. É tentar, com ferramentas imperfeitas, apontar na direção daquilo que escapa. Talvez toda grande obra de arte seja, no fundo, uma tentativa fracassada e bela de nos mostrar uma cor que não existe.
Fico pensando no que aconteceria se, por acaso, todos nós enxergássemos o stygian blue com a mesma facilidade com que enxergamos o vermelho de um semáforo. Provavelmente deixaria de ser revelação e viraria só mais uma cor no catálogo, sem mistério nenhum. A beleza dela está exatamente em ser rara, quase roubada da própria fisiologia, um lampejo que dura segundos e depois desaparece de novo atrás do preto comum.
Acho que a arte funciona parecido.
As obras que mais me marcam não são as que explicam tudo, mas as que deixam escapar um pedaço do que não cabe em palavra nem em pigmento, e me obrigam a completar o resto sozinha.
Acho que por isso que eu continuo voltando pra cor que não existe, mesmo sabendo que nunca vou conseguir pintá-la. Ainda assim, vale a tentativa.
*Larissa Cabreira é colaboradora d’O Defensor.
**Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.




