sábado, 29 agosto, 2026
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Arte em foco: A poética do encontro entre gerações na arte contemporânea

Por: Larissa Cabreira*

Ontem eu fui prestigiar a abertura de uma exposição aqui em Taquaritinga e saí de lá sem uma leitura imediata do que tinha sentido, só com a sensação ainda em suspensão. 

A exposição do artista Gabozzo reuniu obras dele, trabalhos da filha Pietra Araújo e também criações de dois alunos: Davi Leitão e Lorenzo Silva. Crianças ainda, mas com uma entrega artística que chama muita atenção.

Era uma sala habitada por idades diferentes que, por algum motivo, não se contradiziam.

Eu fiquei um tempo observando mais o que acontecia entre as obras do que as obras em si.

É muito interessante ver crianças expondo trabalhos com a mesma naturalidade com que alguém aponta algo pela janela. Sem esse hábito adulto de justificar tudo o que se faz.

E isso muda tudo.

Quando você olha por muito tempo, começa a perceber que aquilo não é exatamente uma exposição. É um recorte de processo. Um pedaço de vida ainda em construção, exposto sem a pressa de parecer pronto. 

A arte, ali, não parecia querer ser definitiva.

Parecia só estar acontecendo.

Em algum momento eu me peguei pensando que a gente perde alguma coisa quando cresce. Não é a capacidade de fazer, mas a de não interromper o gesto com tanta consciência dele.

As crianças não pareciam pensar sobre isso. Elas só estavam dentro.

Cada trabalho exposto carrega uma narrativa silenciosa. E cada artista, independentemente da idade, atravessa um percurso próprio de descoberta.

É muito significativo ver essa coexistência de gerações no mesmo espaço. 

Ali se torna evidente que a arte não é um ponto de chegada. É uma travessia. 

Um movimento contínuo que pode começar cedo e se desdobrar ao longo da vida inteira.

E, no meio disso tudo, é impossível não refletir sobre a importância desses espaços de fruição e partilha.

Exposições assim não são apenas mostras de trabalhos. São dispositivos de encontro. Entre sujeitos, temporalidades e modos distintos de perceber o mundo.

Elas também operam como lembretes.

De que criar não é um gesto distante ou inacessível, mas uma prática possível, cotidiana e, sobretudo, cultivável.

Ver crianças tão implicadas nesse processo me reconduziu justamente a isso: a potência que existe quando a criação ainda não foi excessivamente racionalizada.

Saí de lá com essa impressão meio difusa, que não se organiza em ideia… mais próxima de uma lembrança que ainda está acontecendo, sabe?

E, de algum modo, isso também é arte.

A exposição permanece aberta para visitação de 28 de agosto a 3 de setembro, com os seguintes horários: de segunda a sexta-feira, das 14h às 20h, e aos sábados e domingos, das 10h às 18h. 

*Larissa Cabreira é colaboradora d’O Defensor.