sábado, 4 julho, 2026

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Artigo: Carta às Mulheres Brasileiras

Por: Raphael Anselmo* e Gustavo Girotto**

Se em 2002 a política precisou tranquilizar o mercado, em 2026 talvez precise explicar às mulheres por que ainda resiste em dividir poder.

Houve quem se surpreendesse com a mais recente crise envolvendo Michelle Bolsonaro. Na verdade, surpresa não deveria haver. O episódio apenas escancarou aquilo que críticos do bolsonarismo e da extrema direita brasileira denunciam há anos: o espaço destinado às mulheres existe enquanto elas cumprem o papel que lhes foi reservado — captar o voto feminino. Nada além disso.

Na mesma semana em que Romeu Zema atribuiu às mulheres a responsabilidade prioritária pelos afazeres domésticos, Michelle Bolsonaro protagonizou mais um capítulo das disputas internas da direita. A coincidência é eloquente. Enquanto um verbaliza uma visão tradicional sobre o papel feminino, o outro episódio parece ilustrar como essa lógica pode funcionar na prática: a mulher é valorizada enquanto reforça o projeto político; quando passa a disputar protagonismo, surgem os limites.

Há um paralelo inevitável com a histórica Carta ao Povo Brasileiro, de 2002. Naquele momento, Luiz Inácio Lula da Silva precisou escrever ao mercado financeiro para garantir estabilidade, respeito aos contratos e responsabilidade econômica. Era uma carta destinada a reduzir desconfianças.

Passados quase 25 anos, talvez a direita brasileira precise escrever outra carta: uma Carta às Mulheres Brasileiras.

Não para prometer respeito apenas durante a campanha. Não para repetir discursos sobre família, fé ou proteção feminina. Mas para explicar por que tantas mulheres são chamadas para pedir votos, mas tão poucas são convidadas a dividir o poder.

O peso do eleitorado feminino na política brasileira deixou de ser uma variável há muito tempo. A eleição da primeira mulher à Presidência da República, em 2010, consolidou uma realidade incontornável: nenhuma eleição nacional é vencida sem dialogar com as mulheres. Desde então, partidos de todos os espectros ampliaram sua presença nas campanhas, reconheceram sua importância estratégica e passaram a investir na comunicação voltada ao eleitorado feminino.

O problema começa quando termina a campanha.

Durante anos, Michelle Bolsonaro foi apresentada como o rosto feminino de um projeto liderado por homens. Percorreu igrejas, mobilizou eleitoras, suavizou a imagem de Jair Bolsonaro e ajudou a reduzir sua rejeição entre mulheres. Era uma peça indispensável da estratégia eleitoral. Mas, ao demonstrar protagonismo próprio e influenciar disputas internas, descobriu que prestígio e poder não são sinônimos.

Essa talvez seja a principal contradição de parte da direita brasileira. A mulher é celebrada enquanto representa o projeto. Quando passa a representar a si mesma, torna-se um problema.

Não se trata apenas de Michelle Bolsonaro. Ela própria sempre defendeu uma visão conservadora dos papéis de gênero e fez campanha por um projeto que coloca a família tradicional no centro da vida política. A ironia está justamente aí: agora experimenta, segundo essa leitura crítica, os limites da estrutura que ajudou a fortalecer. Descobre que existe uma enorme diferença entre ocupar a vitrine e ocupar a sala onde as decisões são tomadas.

A crise extrapola os muros da família Bolsonaro. Ela atinge um discurso político inteiro. Afinal, o eleitor é levado a acreditar na imagem de unidade enquanto assiste às disputas internas pelo controle do poder. O desgaste deixa de ser familiar e passa a ser eleitoral.

Taquaritinga também oferece um retrato dessa realidade. Enquanto partidos de esquerda consolidaram lideranças femininas permanentes — como a vereadora Miriam Ponzio —, os principais palanques da direita continuam ocupados, quase exclusivamente, por homens. As mulheres aparecem na campanha. Os homens aparecem no comando.

Talvez seja justamente essa a carta que falta ser escrita.

Uma carta que responda perguntas simples. As mulheres são chamadas para compartilhar decisões ou apenas para ampliar o alcance eleitoral? São tratadas como lideranças ou como instrumentos de campanha? Sua autonomia política é respeitada ou possui prazo de validade?

Se a Carta ao Povo Brasileiro buscava tranquilizar investidores, a Carta às Mulheres Brasileiras precisaria tranquilizar metade do eleitorado.

Porque pedir votos às mulheres é relativamente fácil. Difícil, ao que parece, continua sendo dividir o poder com elas.

*Raphael Anselmo é economista.

**Gustavo Girotto é jornalista.

***Os artigos publicados com assinatura não manifestam a opinião de O Defensor. A publicação corresponde ao propósito de estimular o debate dos problemas municipais, estaduais, nacionais e mundiais e de refletir as distintas tendências do pensamento contemporâneo.